Relatório do BC e IPCA-15 reforçam perspectiva de inflação mais persistente em 2026
Publicado em 27/03/2026 , por Folha Online
O relatório de política monetária do BC (Banco Central), que projeta inflação de 3,9% ao fim de 2026, e o resultado do IPCA-15 —considerado uma prévia da inflação oficial— reforçam a tese de que a alta dos preços deve ser mais persistente neste ano. É o que dizem analistas do mercado financeiro consultados pela Folha.
Tanto o relatório da autarquia quanto os dados divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) nesta quinta-feira (26) têm como pano de fundo os temores de que a guerra no Irã pressione a inflação brasileira.
Como mostraram os dados, o IPCA-15 desacelerou a 0,44% em março, após subir 0,84% em fevereiro. Entretanto, pressionado pelo setor de alimentos, o resultado foi acima do esperado pelo mercado financeiro, que projetava alta de 0,29%.
No acumulado de 12 meses, o índice também desacelerou, passando de 4,1% até fevereiro para 3,9% até março. A taxa permanece dentro do teto da meta de inflação do BC (4,5% para o IPCA em 2026).
A desaceleração menor do que a projetada é reflexo do avanço do grupo de alimentos, que tem o maior peso no índice. O grupo teve variação positiva de 0,88% durante o mês (0,19 ponto percentual dos 0,44% de avanço). O setor tinha tido alta de 0,20% no mês anterior.
Para Rodrigo Moliterno, head de renda variável da Veedha Investimentos, o documento, em conjunto com o IPCA-15, consolidou a leitura de uma inflação mais resistente. Ele destaca que essa percepção também impactou a curva de juros.
As taxas dos DIs (Depósitos Interfinanceiros), referência do mercado para as expectativas de Selic e CDI (usado como referência para remunerar investimentos), subiram diante da perspectiva de juros elevados por mais tempo.
O contrato para janeiro de 2028 avançou de 13,8% no ajuste anterior para 14,125% (alta de 32 pontos-base). Na ponta longa, o DI para janeiro de 2035 passou de 13,99% para 14,16% (alta de 17 pontos-base).
No relatório de política monetária, divulgado nesta quinta-feira (26), o BC elevou para 3,9% sua projeção de inflação para este ano, sobretudo pelo aumento dos preços do petróleo. No documento anterior, de dezembro de 2025, a estimativa era de 3,5%.
"Os preços do petróleo, do gás e de outros produtos subiram e permaneceram instáveis desde o início do conflito. Se o trânsito pelo estreito de Hormuz continuar interrompido por tempo prolongado, ou se o conflito ganhar contorno regional, o impacto sobre os preços e sobre a atividade econômica pode ser significativo e duradouro", afirmou a autarquia no relatório.
No relatório de política monetária, o BC disse também que a guerra eleva o grau de incerteza em torno de suas previsões. "Se prolongado, seus impactos predominantes, no país e no exterior, devem ser consistentes com um choque negativo de oferta, aumentando a inflação e reduzindo o crescimento, ainda que alguns setores da economia brasileira, especialmente o petrolífero, possam se beneficiar."
Para Rafael Pérez, economista da Suno Research, a revisão das projeções do BC reforça o peso da guerra no Oriente Médio na trajetória da inflação.
"O Banco Central reforça o risco de um choque de oferta decorrente da guerra no Oriente Médio elevar a inflação e reduzir o crescimento —um cenário clássico. A autoridade monetária se alinha a outros bancos centrais globais, que também demonstram cautela", afirma.
Ele acrescenta, contudo, que os comunicados do BC ainda sugerem um choque transitório e reforçam o cenário de incerteza, por ora insuficiente para alterar o ciclo de cortes de juros. "A principal discussão agora passa a ser a magnitude desses cortes, que seguirá fortemente condicionada ao cenário geopolítico e ao nível de preços do petróleo."
O BC persegue a meta de inflação cujo centro é de 3% para o IPCA no acumulado de 12 meses. O intervalo de tolerância é de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo (teto de 4,5% e piso de 1,5%).
Neste mês, o Copom reduziu a taxa básica (Selic) em 0,25 ponto percentual, para 14,75% ao ano, no primeiro corte em quase dois anos. A última queda havia sido registrada em maio de 2024.
Analistas, contudo, projetam um ritmo de queda mais moderado em função da guerra no Oriente Médio. Segundo o Boletim Focus, divulgado nesta segunda-feira (23), a expectativa é que a Selic termine 2026 em 12,50%, enquanto a inflação deve alcançar 4,17%.
Fonte: Folha Online - 26/03/2026
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