Recorde de inadimplência expõe limite das políticas de renegociação de dívidas
Publicado em 16/04/2026 , por R7
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Com o cenário de superendividamento crescente no Brasil, o governo estuda um novo programa de renegociação
Pela primeira vez em quatro anos, o número de pessoas que deixaram de pagar suas contas no país chegou a 81,3 milhões, quase metade da população brasileira, apontam dados do Serasa. Com o cenário de superendividamento crescente no Brasil, o governo estuda um novo programa de renegociação de dívidas. Apesar do alívio momentâneo da proposta, especialistas entendem que a medida funciona apenas como efeito paliativo, sem resolver a raiz do problema.
Segundo analistas, o cenário da inflação, altos juros do cartão de crédito e desorganização financeira são alguns dos principais fatores que contribuem para a cultura do endividamento no Brasil.
O economista Augusto Mergulhão explica que programas de renegociação como o Desenrola, lançado pelo governo federal em julho de 2023, podem ajudar famílias a reorganizar dívidas caras e voltar ao mercado de crédito, mas não resolvem sozinhos o problema da inadimplência.
“Hoje, o Brasil ainda convive com um número muito alto de inadimplentes, inflação mais pressionada e crédito caro, especialmente no cartão, o que ajuda a explicar por que tanta gente volta a se endividar. Então, eu vejo esse tipo de medida como um alívio importante no curto prazo, mas com efeito mais paliativo do que estrutural”, aponta.
O especialista entende que a medida não resolve as causas “mais profundas”, como juros altos, desorganização financeira e até novos focos de pressão sobre o orçamento das famílias, como as apostas on-line.
Em julho de 2023, por exemplo, quando o Desenrola chegou ao público, o Brasil contava com 71,41 milhões de pessoas inadimplentes. Dois anos após o lançamento do programa, em 2025, o índice saltou para 78,2 milhões, um aumento de quase 7 milhões de endividados.
O Desenrola foi uma iniciativa do governo federal, em parceria com instituições financeiras, para ajudar brasileiros a renegociarem dívidas com condições mais favoráveis, como descontos, parcelamentos e prazos estendidos, além de disponibilizar conteúdo de educação financeira. A adesão ao programa era voluntária tanto para os devedores quanto para as instituições financeiras.
Nessa terça-feira (14), o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva admitiu que o Desenrola não atendeu às necessidades da população e que precisa de aprimoramento.
“O Desenrola não atendeu todas as necessidades. Mas nós agora queremos aperfeiçoar o programa para que a gente possa amenizar”, disse.
O economista Rafael Richter reforça a necessidade de as pessoas entenderem melhor como funciona o crédito que elas tomam. Para o especialista, é preciso maior investimento em educação financeira para a população por parte do Executivo.
“Nesse sentido, o Desenrola 2.0 talvez seja tapar o sol com a peneira. A gente não está atacando as raízes do problema. Essa falta de educação financeira é um modelo econômico baseado no crescimento via consumo e crédito. É um modelo que diminui muita potência da política humanitária, porque a gente cria várias linhas de crédito diferentes para incentivar setores, incentivar consumo, incentivar várias coisas ou o que a gente deseja naquele momento”, explica Richter.
Richter entende, ainda, que país deve rever a política de crédito, com um modelo de crescimento baseado na poupança.
“Quanto mais a gente fala de pessoas endividadas, cria uma linha de crédito, cria um programa assim, que dá um juros especial, um juros subsidiado, uma taxa beneficiada, um direcionamento de crédito, diminui a potência da política monetária, que a potência é quanto que os juros têm que subir para afetar o tanto que as pessoas pegam de empréstimo. Hoje, no Brasil, a nossa potência é muito baixa.
A gente tem que botar os juros muito altos para o crédito mexer. Só que daí, como a gente coloca os juros muito altos, o crédito mexe e ele vai para uma taxa de juros que dói nas pessoas, faz elas perderem muito, faz com que elas tenham que pegar uma taxa muito alta para poder fazer o que elas precisam, ter esse crédito", conclui.
Outro ponto ressaltado é a taxa de juros no Brasil, que está em 14,75% ao ano. O índice representa o primeiro corte após 2 anos em 15%. Para o Banco Central, a atividade econômica segue em desaceleração, enquanto o mercado de trabalho ainda mostra resiliência. A inflação tem apresentado algum alívio, mas permanece acima da meta.
“A taxa de juros no Brasil está muito alta. A inflação atual não está convergindo para a meta, especialmente devido à guerra no Irã. Então você tem um Banco Central que está muito reticente a diminuir a taxa de juros. Ele tem muitas razões para isso, muitas razões para essa reticência”, pontua.
Fonte: R7 - 16/04/2026
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