Bancos se preparam para mais calotes
Publicado em 11/05/2026 , por Folha Online
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A epidemia de endividamento —a mesma que levou o governo a lançar o Desenrola 2.0 como boia salva-vida para as famílias—, tirou R$ 70 bilhões dos três maiores bancos brasileiros nos últimos 30 dias. O dinheiro não saiu dos cofres, mas do valor de mercado, de Itaú, Bradesco e Banco do Brasil.
As ações dos três bancões despencaram na última semana, com a divulgação de seus resultados. E não foi exclusividade dos mais tradicionais do mercado. Os moderninhos e digitais Nubank e Banco Inter também sofrem no ringue. Banco Inter derreteu na Bolsa, com queda de 21% no último mês, enquanto o Nubank conseguiu esquivar-se melhor e caiu pouco menos de 5%. Em valor de mercado, juntos, perderam quase R$ 20 bilhões.
Quem olhar desavisado para os resultados pode estranhar as quedas: aumentos nas receitas e lucros recordes. Mas esses dois itens só dizem respeito ao período que passou. E investir é pensar no que vai acontecer de agora em diante.
O que levou grandes investidores a venderem os papéis dos bancos nos últimos dias foram as pistas dos balanços sobre o futuro das contas: eles estão se preparando para um cenário pior do que o imaginado.
Em economês, analistas dizem que os resultados mostraram uma "piora na qualidade dos ativos" e um "aumento inesperado no provisionamento". Em português, significa que estão emprestando dinheiro com garantias piores e tendo que guardar mais dinheiro para cobrir calotes.
Enquanto o assunto do noticiário é o endividamento das famílias, principalmente de baixa renda, o mercado é forçado a lembrar que empresas são feitas de pessoas. E se pessoas estão se "enrolando" nas contas a ponto de precisar de uma nova rodada de ajuda do governo, as empresas também estão sem condições de honrar seus compromissos.
Entra aí, novamente, a discussão da taxa de juros, hoje em 14,5%. Quanto mais altos estão, mais difícil é para as empresas saldarem suas dívidas.
O Banco Central topou cortar a Selic nas duas últimas reuniões do Copom, em minguadas (ainda que significativas) parcelas de 0,25 ponto percentual. Esses cortes são possíveis quando a inflação está sob controle. Mas está cada vez mais difícil garantir que ela está controlada.
Enquanto a guerra entre Estados Unidos e Irã não dá sossego ao preço do petróleo —espécie de regente da orquestra da inflação—, o futuro parece mais imprevisível do que o comum. E a boia de salvação do Desenrola para as famílias traz, em sua outra ponta, novas incertezas: qual será sua adesão, quanto ele aumentará o consumo e em nova tomada de crédito pelos "desendividados".
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, garantiu que o programa não terá resultado inflacionário. Mas economistas experientes garantem que a água ainda está turva demais para fazer previsões assim.
Ao olhar a opção dos donos do dinheiro —os bancos— de aumentar suas reservas para futuros calotes, vemos mais fumaça do que bons horizontes para a estabilidade.
O Ibovespa, principal indicador da Bolsa, depois de flertar com os 200 mil pontos, se encolheu, mas ainda registra alta de 15% neste ano. O índice que mede só o desempenho do setor financeiro, IFNC, subiu 10%.
Fonte: Folha Online - 11/05/2026
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