O futuro da distribuição começa pelo fim das perdas de eletricidade
Publicado em 03/06/2026 , por Folha Online
Pronto para ler a matéria.
O Brasil perde anualmente cerca de 40 TWh de energia elétrica para furtos e fraudes —em 2024, foram desperdiçados 40,2 TWh. Em relatório recente, o Tribunal de Contas da União (TCU) destaca que esse volume é maior do que toda a geração anual da usina de Belo Monte.
Em um momento em que o país discute como atender ao crescimento da demanda dos data centers, eletrificar transportes e acelerar a transição energética, continuamos desperdiçando uma quantidade de energia equivalente a quase cinco vezes o consumo de todos os data centers brasileiros, estimado em 8,2 TWh. A dimensão do desperdício impressiona.
O debate energético costuma concentrar-se na expansão da oferta. Mas talvez a pergunta mais urgente seja outra: estamos usando bem a energia que já produzimos?
A renovação das concessões de distribuição de energia elétrica oferece uma oportunidade rara para enfrentar essa questão. Quatorze contratos já foram renovados ou estão em processo de renovação com base no decreto 12.068/2024. Trata-se de uma das mais importantes reformas institucionais do setor na última década. E ela ocorre em um momento em que as redes elétricas passam a ocupar posição central na competitividade da economia.
O TCU chama atenção para um problema que há muito deixou de ser apenas uma questão operacional. As perdas não técnicas —o nome regulatório para furtos e fraudes de energia— representaram, em 2024, um prejuízo estimado em R$ 10,3 bilhões. Desse total, R$ 7,1 bilhões foram repassados às tarifas dos consumidores que pagam suas contas regularmente.
Quando alguém faz um "gato", o custo não desaparece. Apenas muda de endereço.
O impacto vai além das tarifas. Parte das perdas é absorvida pelas próprias distribuidoras, o que reduz retornos e capacidade de investir, modernizar redes e melhorar a qualidade do serviço. O problema de quem rouba torna-se o problema de todos.
O problema tampouco está distribuído de forma homogênea. Duas distribuidoras concentram mais de um terço das perdas não técnicas do país. A Light responde por aproximadamente 22% do total nacional e a Amazonas Energia, por cerca de 12%. As dez distribuidoras com maiores índices concentram quase três quartos do problema.
A comparação internacional ajuda a colocar esses números em perspectiva. A média de perdas totais nos países da OCDE gira em torno de 6%. O Chile apresenta resultado semelhante. O Brasil opera próximo de 14%. A diferença não decorre de geografia ou clima. Reflete instituições, incentivos e capacidade de enforcement. Se o país convergisse apenas para o padrão chileno, economizaria cerca de 28 TWh por ano.
Nem todas as perdas, contudo, têm a mesma origem. Parte delas está associada à vulnerabilidade social, à precariedade urbana e à ausência de acesso formal à energia. Outra parte decorre do controle territorial exercido por organizações criminosas ou da simples expectativa de impunidade. Tratar realidades tão distintas com uma única política pública produz ineficiência e transfere custos para toda a sociedade.
É justamente nesse ponto que a renovação das concessões abre uma oportunidade relevante. O novo modelo reconhece a existência das chamadas Áreas com Severa Restrição Operativa (ASROs), territórios onde as distribuidoras enfrentam obstáculos extraordinários para atuar. O avanço é importante. Mas o próprio TCU aponta limitações na forma como essas áreas vêm sendo delimitadas.
Hoje, a classificação é baseada principalmente em CEPs, uma unidade geográfica excessivamente agregada para capturar a complexidade dos territórios. Um mesmo CEP pode incluir áreas plenamente acessíveis e localidades sob controle do crime organizado. A consequência é que diferentes problemas acabam recebendo o mesmo tratamento regulatório.
O Brasil já dispõe de instrumentos mais sofisticados. Índices de vulnerabilidade social construídos em nível de setor censitário, como o IVS Ceri, permitem distinguir pobreza estrutural, informalidade e criminalidade organizada com muito mais precisão. O desafio é que parte dos dados necessários para esse tipo de análise continua represada, aguardando a divulgação completa das bases do Censo 2022.
O debate sobre perdas não técnicas deixou de ser apenas uma discussão sobre combate ao furto. Ele passou a ser também uma discussão sobre o futuro do setor elétrico. O Brasil pretende atrair data centers, ampliar a eletrificação da economia e operar redes cada vez mais digitalizadas. Tudo isso exigirá investimentos em infraestrutura, tecnologia e resiliência.
Nesse contexto, recuperar parte da energia que hoje se perde pode ser uma das formas mais rápidas e baratas de preparar o sistema para a nova demanda.
A renovação das concessões oferece uma oportunidade rara para alinhar contratos, incentivos e tecnologia com as necessidades de um setor em transformação. Num país que pretende liderar a economia digital e avançar na transição energética, reduzir perdas não técnicas não é apenas uma questão de justiça tarifária. É uma estratégia de modernização.
O futuro do setor elétrico dependerá não apenas dos novos megawatts que conseguirmos construir, mas também daqueles que deixarmos de perder.
Fonte: Folha Online - 02/06/2026
Notícias relacionadas
- Veja como o STJ tem julgado questões sobre o fornecimento de energia elétrica
- Conta de energia fica mais cara a partir de hoje; veja 50 dicas para economizar
- Conta de luz fica mais cara em julho; veja dicas de como economizar com a bandeira vermelha
- 01/04/2026 Energia mais cara no mercado livre acirra debate sobre modelo de preço
- Senado: comissão aprova compra de energia por consumidor diretamente da empresa geradora
- Projeto quer dar ao consumidor opção para decidir de quem comprar energia
- O que mais consome energia na sua casa e como economizar
- Comissão do Senado aprova projeto que permite a consumidor comprar energia direto de usina
- Chegada do verão: é possível economizar com água e energia elétrica nos dias mais quentes?
- Efeito rebote: “bondades” do governo serão pagas pelo consumidor nos próximos anos
Notícias
- 23/09/2026 Militares e servidores acusam empresa de cobrança abusiva em consignado
- Falsos sites de faculdades usam notebooks como isca para golpe do Pix
- Demissão não justificada de pessoa com bipolaridade é presumidamente discriminatória
- INSS amplia prazo de auxílio-doença sem perícia; veja o que muda
- Atlas: 75% dizem que bets deveriam ser proibidas no Brasil
- Nova regra da ANS facilita acesso ao DIU hormonal em planos de saúde
Perguntas e Respostas
- Quanto tempo o nome fica cadastrado no SPC, SERASA e SCPC?
- A consulta ao SPC, SERASA ou SCPC é gratuita?
- Saiba quais os bens não podem ser penhorados para pagar dívidas
- Após quantos dias de atraso o credor pode inserir o nome do consumidor no SPC ou SERASA?
- Protesto de dívida prescrita é ilegal e dá direito a indenização por danos morais
- Como consultar SPC, SERASA ou SCPC?
- ACORDO - Em caso de acordo, após o pagamento da primeira parcela o credor é obrigado a tirar o nome do devedor dos cadastros de SPC e SERASA ou pode mantê-lo cadastrado até o pagamento da última parcela?
- CHEQUE – Não encontro à pessoa para qual passei um cheque que voltou por falta de fundos. O que posso fazer para pagar este cheque e regularizar minha situação?
- Problemas com dívidas? Dicas para você não entrar em desespero
- PROTESTO - Qual o prazo para o protesto de um cheque, nota promissória ou duplicata? O protesto renova o prazo de prescrição ou de inscrição no SPC e SERASA?
- Cartão de Crédito: Procedimentos em caso de perda, roubo ou clonagem
- O que o consumidor pode fazer quando seu nome continua incluído na SERASA ou no SPC após o pagamento de uma dívida ou depois de 5 anos?
- Posso ser preso por dívidas ?
- SPC e SERASA, como saber se seu nome está inscrito?
- Como tirar o nome do SPC e SERASA? Quais os procedimentos para exclusão?
