Opinião: endividamento das famílias coloca o varejo em modo de sobrevivência
Publicado em 05/06/2026 , por Exame
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Com mais de 80% das famílias endividadas, o setor enfrenta queda no ticket médio, corte de itens supérfluos e restrição severa de crédito
Mais do que vencer, é tempo de sobreviver a 2026 (PeopleImages/Shutterstock)
Por Fernando Moulin*
O avanço do endividamento das famílias brasileiras produz efeitos cada vez mais claros e impactantes no varejo.
Com parte relevante da renda comprometida com parcelas, financiamentos e pagamento de contas básicas (além das bets), milhões de consumidores passaram a rever prioridades e cortar gastos considerados “secundários”.
Isso reduz o espaço para compras por impulso, diminui o ticket médio e pressiona empresas de diferentes segmentos de atuação.
Hoje, mais de 80% das famílias brasileiras convivem com algum tipo de dívida, segundo dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo).
Esse cenário limita o consumo e faz com que o orçamento doméstico fique concentrado em despesas essenciais, como alimentação, moradia, transporte e contas fixas. Quando sobra pouco dinheiro no fim do mês, itens antes comuns deixam de entrar no carrinho.
Produtos de maior valor agregado costumam sentir esse impacto primeiro. O consumidor troca marcas premium por versões mais baratas, reduz compras de alguns itens perecíveis, corta iogurtes, queijos especiais e produtos não indispensáveis. Esse movimento afeta diretamente supermercados, atacadistas, lojas especializadas e toda a cadeia de abastecimento.
Além disso, o parcelamento, que durante anos sustentou boa parte das vendas no Brasil, perdeu força como motor de consumo. Muitas famílias já estão com limite de cartão comprometido ou enfrentam dificuldades para assumir novas prestações. Mesmo quando a compra é oferecida sem juros, o medo de se enrolar ainda mais financeiramente pesa na decisão.
Juros altos e crédito restrito
O cenário fica ainda mais delicado quando os juros permanecem elevados. Nesse ambiente, o custo das parcelas sobe e o crédito fica mais seletivo. O consumidor que antes parcelava em 10 ou 12 vezes encontra menos opções, enquanto o varejista enfrenta custos maiores para financiar essas vendas.
Para evitar repassar esse peso ao preço final, muitas empresas reduziram a quantidade de parcelas oferecidas. Em vez de longos financiamentos, algumas redes limitam compras em três, cinco ou seis vezes, ou exigem valor mínimo para parcelamento. Isso reduz o acesso ao consumo, especialmente em bens duráveis, como eletrodomésticos e eletrônicos.
O PIX parcelado surge como alternativa, mas ainda passa por fase de adaptação. Muitos consumidores continuam dependentes do cartão de crédito ou do rotativo para organizar o fluxo de caixa. Em famílias já pressionadas por todos os lados, novas modalidades não resolvem sozinhas a falta de renda disponível.
Outro efeito importante aparece no calendário de compras. Há consumidores que concentram gastos logo após receber salário e praticamente interrompem compras no restante do mês. Para o varejo, isso gera fluxo irregular nas lojas e dificulta planejamento de estoque, promoções e metas de vendas.
Fonte: Exame Online - 04/06/2026
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