Os sinais de uma crise de dívida que a eleição prefere ignorar
Publicado em 23/07/2026 , por Folha Online
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A disputa eleitoral de 2026 tem deixado em segundo plano um tema central: a estabilidade econômica do país. O Brasil caminha para uma crise fiscal, alimentada pela trajetória explosiva do endividamento público. Há incerteza quanto à capacidade do governo de gerar superávits primários suficientes para estabilizar ou inverter a trajetória da dívida.
Isso, em geral, eleva o prêmio de risco soberano, que, por sua vez, tende a depreciar o câmbio, desancorar as expectativas de inflação e pressionar os juros. O resultado pode acabar sendo um quadro de estagflação, com desaceleração da atividade econômica concomitante à aceleração da inflação.
Falta, porém, senso de urgência. Quando o tema aparece, costuma vir embalado em promessas de choque de gestão, com corte de desperdícios, junção de ministérios e outras medidas simbólicas. Hoje, menos de 10% da despesa primária federal é de alocação discricionária. Há, sem dúvida, ineficiências administrativas, mas a raiz do problema está na rigidez das despesas obrigatórias, que crescem por regras próprias de indexação e vinculação constitucional.
Os títulos públicos já dão sinais de alerta. Papéis indexados à inflação são negociados com juros reais próximos de 8% ao ano em quase toda a curva, e o Tesouro chegou a cancelar leilões para não referendar a alta do prêmio de risco. Nos últimos três anos, a dívida indexada à Selic ganhou espaço e já responde por quase metade do estoque. Isso significa que um choque de risco fiscal pode elevar o custo da dívida mesmo sem novas emissões.
Entre 2014 e 2017, vivemos uma crise severa, marcada por desajuste fiscal, juros elevados, forte aceleração da inflação e contração severa da atividade. O endividamento bruto disparou de 54% para 72% do PIB (Produto Interno Bruto), enquanto o juro real de dez anos alcançou a marca dos 8%. Como consequência, o PIB per capita recuou 7,5% e a taxa de pobreza subiu de 5,2% para 7,3%, incorporando mais de 4,5 milhões de pessoas à condição de pobreza. Essa experiência deveria bastar para trazer algum senso de urgência.
Atualmente, partimos de um patamar semelhante de juro real, mas com uma dívida bruta que deve fechar o ano acima de 83% do PIB. Soma-se a isso um ambiente externo de taxas mais altas, que tende a encarecer ainda mais sua rolagem caso o ajuste não venha.
Um ajuste fiscal cumpre sua função quando reduz a incerteza sobre a trajetória da dívida, permitindo a queda do juro real e a ancoragem da inflação esperada. Isso não nasce de cortes simbólicos, mas de uma mudança de regime nas despesas rígidas: previdência, benefícios indexados ao salário mínimo e gastos vinculados à arrecadação, que consomem o Orçamento e comprimem o espaço para investimentos.
Mas será que temos sido eficientes com esse gasto crescente? A resposta é não. O Brasil registrou em 2024 os menores níveis de pobreza e extrema pobreza da série histórica do IBGE, mas poderia certamente ter alcançado mais. Entre 2014 e 2023, os gastos com Bolsa Família e BPC (Benefício de Prestação Continuada) cresceram mais de 140% em termos reais, e o número de pessoas pobres recuou apenas 11%. Esse dado sugere que o problema não está apenas no volume dos recursos, mas na qualidade de seu desenho.
Para estabilizar a dívida em 80% do PIB, com juro real de 6,5%, o esforço fiscal necessário é de quatro pontos percentuais do PIB, não de dois. Falar em menos do que isso só faz sentido com um choque de credibilidade capaz de reduzir o custo de financiamento.
Para tal, é preciso uma agenda de reformas, com medidas estruturais amplas. Já passamos do ponto em que o ajuste poderia ser feito com folga. O cenário externo, que até aqui ajudou a suavizar os desafios domésticos, não permanecerá favorável indefinidamente.
Justamente por isso, a estabilidade econômica deveria ocupar o centro do debate eleitoral, e não a margem dele.
Fonte: Folha Online - 22/07/2026
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