Faculdade comprou 105 corpos do Hospital Colônia de Barbacena; pedido de indenização passa de R$ 13 milhões
Publicado em 21/08/2026 , por G1
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Segundo o MPF, não houve acordo durante as negociações com a Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais, o que levou ao ajuizamento da ação. Estado de Minas e União também foram processados.
Hospital Colônia fecha definitivamente após 115 anos de atividade
Pelo menos 105 corpos de pessoas internadas no antigo maior manicômio do Brasil, o Hospital Colônia de Barbacena, foram vendidos para uma faculdade de medicina entre 1971 e 1975, segundo o Ministério Público Federal (MPF).
Cada cadáver era comercializado por 50 cruzeiros novos, conforme documentos reunidos na investigação. Agora, o órgão cobra reparação de R$ 14,8 milhões pelo caso.
Criado em 1903, o Hospital Colônia funcionou por mais de 80 anos no Campo das Vertentes e abrigou milhares de pacientes internados de forma compulsória em condições precárias. Cerca de 60 mil morreram no local, e pelo menos 1.800 corpos foram vendidos para universidades.
A petição é movida contra a Fundação Educacional Lucas Machado (Feluma), mantenedora da Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais (FCMMG), a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), o Estado de Minas Gerais e a União.
Em nota, a FCMMG e a Feluma informaram que sempre colaboraram com o Ministério Público Federal nas apurações. As instituições disseram ainda que não têm conhecimento de nenhuma demanda apresentada pelo órgão e que todas as teses de defesa serão apresentadas no processo no momento oportuno. Leia o posicionamento na íntegra mais abaixo.
A Fhemig, por meio da Advocacia-Geral do Estado (AGE), informou que ainda não foi notificada e que, quando for intimada, se manifestará nos autos. A AGU também respondeu que a União ainda não foi intimada na ação.
A ação pede que a Justiça condene as instituições a adotar medidas concretas, como o pagamento de R$ 13,7 milhões por danos morais coletivos, além da publicação de declarações oficiais e da realização de cerimônias públicas em reconhecimento aos fatos. Outras medidas sugeridas:
- criação de um memorial em Belo Horizonte e digitalização de documentos históricos;
- inclusão obrigatória de conteúdos sobre violência manicomial, direitos humanos e bioética nos cursos da faculdade;
- criação, pelo Ministério da Educação (MEC), de regras nacionais para o uso de cadáveres em instituições de ensino;
- repasse de R$ 1,1 milhão pela Feluma para pesquisas independentes sobre o tema;
- proibição de cortes de recursos da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) por 15 anos, como forma de evitar a repetição de práticas semelhantes.
Segundo os procuradores da República Angelo Giardini de Oliveira e Edmundo Antonio Dias Netto Junior, a ação busca não apenas responsabilizar os envolvidos, mas também promover medidas de reparação histórica para as vítimas e seus familiares.
Corpos vendidos a 50 cruzeiros
De acordo com o MPF, documentos históricos mostram que cada corpo de paciente era vendido por 50 cruzeiros – cerca de um quarto do salário mínimo em Minas Gerais na época, que era de 216 cruzeiros.
O valor da venda era destinado às despesas de conservação e transporte.
Ainda conforme a ação, a instituição teria adquirido ao menos 105 corpos entre 1971 e 1975, que eram utilizados em aulas de anatomia na então Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, em Belo Horizonte.
Outras faculdades que também compraram corpos
Em abril deste ano, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) pediu desculpas publicamente após admitir o recebimento de corpos de pacientes do Hospital Colônia.
Outra instituição que também reconheceu o recebimento de 169 corpos entre 1962 e 1971 foi a UFJF, que, em maio, publicou uma carta de retratação pública.
No caso da Faculdade de Ciências Médicas, segundo o MPF, não houve acordo durante as negociações administrativas, o que levou o órgão a ajuizar a ação.
O que foi o Hospital Colônia
Criado em 1903, o espaço surgiu como uma instituição destinada ao tratamento de pessoas com transtornos mentais, que muitas vezes davam entrada sem diagnóstico médico adequado.
Na prática, isso significava que não apenas pacientes com doenças mentais eram enviados para lá, mas também aqueles considerados indesejados pela sociedade da época, como homossexuais, militantes políticos, grávidas, indivíduos com deficiências, transtornos ou distúrbios, além de mulheres rejeitadas pelos maridos ou que haviam perdido a virgindade antes do casamento.
Ao longo das décadas de funcionamento, cerca de 60 mil pacientes morreram no local. Pelo menos 1.800 corpos foram vendidos e utilizados em aulas de anatomia em cursos da área da saúde em universidades
O Colônia também ficou conhecido como 'Holocausto Brasileiro', já que ficou marcado por graves violações de direitos humanos. O fechamento simbólico do hospital aconteceu no dia 25 de maio deste ano, com a transferência dos 14 últimos moradores para uma residência terapêutica.
Nota da Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais
"A Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais (FCMMG) e sua mantenedora, a Fundação Educacional Lucas Machado (FELUMA), informam que sempre estiveram em estrita cooperação com o Ministério Público Federal no âmbito das apurações em curso relacionadas a fatos históricos noticiados no contexto da política de saúde mental no país. A instituição reforça que não antecipa conclusões sobre eventos históricos que se encontram sob análise dos órgãos competentes, mantendo postura de respeito às instâncias institucionais responsáveis pela apuração. Paralelamente, a FCMMG destaca que suas atividades acadêmicas e assistenciais são atualmente desenvolvidas em conformidade com os marcos legais e éticos vigentes. Salienta que não tem conhecimento e não foi citada de nenhuma demanda advinda do MPF e que todas as teses de defesa serão juntadas no suposto processo no momento oportuno.A instituição permanece à disposição das autoridades e da sociedade para contribuir com o esclarecimento dos fatos, reiterando seu compromisso com a ética, a formação em saúde e o interesse público".
Fonte: G1 - 21/08/2026
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