Dívida a 82,5% do PIB acende sinal de alerta para correção de rota após as eleições, dizem economistas
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Dívida a 82,5% do PIB acende sinal de alerta para correção de rota após as eleições, dizem economistas

Publicado em 01/09/2026 , por Folha Online

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A relação dívida/PIB (Produto Interno Bruto), que segundo dados do Banco Central alcançou 82,5% em julho, é um sintoma do desarranjo fiscal do país e serve como um sinal de alerta para que o próximo presidente da República corrija a rota das contas públicas a partir de 2027, avaliam economistas.

Apesar disso, ressaltam, nem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nem o senador Flávio Bolsonaro (PL), ambos à frente nas pesquisas das eleições presidenciais, apresentaram ainda um plano detalhado para a contenção de gastos no próximo governo.

Para o economista-chefe da Warren Investimentos, Felipe Salto, o nível crescente de endividamento, o maior em cinco anos, reflete as incertezas quanto ao futuro da política fiscal. Impulsionada pelos juros altos e pelo aumento dos gastos, a dívida bruta ante o PIB subiu 0,6 ponto percentual em comparação com junho.

"O dado é um sinal de alerta para o governo e o Congresso. Passadas as eleições, será preciso apresentar um plano de ajuste fiscal coeso, que preserve as políticas públicas e o seu financiamento, mas corrija distorções e permita ao gasto crescer menos do que o PIB", afirma o especialista em contas públicas.

Na avaliação de Salto, não é necessário um ajuste radical e imediato. "Aliás, nem é viável politicamente. O essencial é ter um plano aprovado no Congresso com o condão de reorientar as expectativas, reduzir o risco e, assim, o custo do endividamento."

O especialista da Warren aponta que um resultado primário (receitas menos despesas antes do pagamento de juros) positivo em cerca de 2% do PIB por um período de dois a três anos seria suficiente para estabilizar a dívida.

"Isso é fundamental para que se possa discutir o restante da agenda mais estrutural, inclusive a composição da dívida pública, o grau de indexação ainda elevado na economia, a questão da meta de inflação e outros fatores que determinam as taxas de juros", afirma.

A relação dívida/PIB costuma ser usada para comparar a situação financeira de diferentes países. Ela indica o quanto um país deve em relação ao tamanho de sua economia e a probabilidade de cada governo pagar suas dívidas.

Quando o percentual é baixo, é um sinal de que a economia está gerando ganhos suficientes para pagar por seus empréstimos. Os investidores ficam mais confiantes na capacidade de pagamento, e os juros cobrados tendem a ser menores.

Quando essa relação é elevada, como no caso brasileiro, a confiança na previsibilidade de pagamento se reduz, e os juros tendem a subir.

Isso tem efeito sobre a economia, como mostra um estudo do Banco Mundial: pesquisadores da instituição concluíram que, quando a relação dívida/PIB ultrapassa os 64% em países emergentes, estes passam a ter um potencial menor de crescimento.

A partir desse patamar, a cada 1 ponto percentual a mais de dívida, a atividade econômica é reduzida em 0,02 ponto percentual, em média.

"Do ponto de vista da atividade, os riscos estão associados à manutenção de um juro elevado por mais tempo. Isso em um contexto em que os efeitos da política monetária estão aparecendo nos dados de produção", diz Salto. "As projeções de crescimento para o ano que vem já estão por volta de 1%."

Gabriel Barros, economista-chefe da ARX, afirma que o elevado custo da rolagem da dívida pública é uma consequência da questão fiscal. "Não há atalhos, e a forma mais assertiva é estrutural: endereçar a estabilização e depois a redução da dívida através do reequilíbrio das finanças públicas, principalmente do gasto", avalia.

Para Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, o patamar de dívida em relação ao PIB acima de 80% preocupa pela baixa capacidade de pagamento do Brasil.

"A gente olha e não vê uma mudança de trajetória, parece que vai continuar se deteriorando. Esse é o grande problema. Mais do que o nível de endividamento, a preocupação é com a ausência da perspectiva de interrupção da trajetória de alta e o início de um declínio dessa relação."

Agostini afirma que uma política fiscal coerente será fundamental para o próximo presidente. "Seja Lula, seja Bolsonaro, vai ser preciso adotar algum pacote de ajuste fiscal para ganhar algum fôlego para os anos seguintes, se não a situação vai ficar insustentável. Os prêmios de risco vão subir tanto que o desempenho da economia pode ser afetado e ir até para recessão", diz o economista da Austin Rating.

Na avaliação dele, preocupa ainda o cenário da atividade econômica desacelerando, endividamento elevado das famílias e o número significativo de empresas entrando em recuperação judicial. "Estamos indo para um cenário bastante nebuloso, em que a arrecadação pode perder fôlego lá na frente."

Fonte: Folha Online - 01/09/2026

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