De braços abertos ao comércio global
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De braços abertos ao comércio global

Publicado em 21/10/2026 , por Estadao

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País do futuro que nunca chega ao seu destino, o Brasil viu, nos últimos anos, seu Produto Interno Bruto (PIB) per capita ser superado pelo de nações que se abriram comercialmente ao mundo, absorvendo conhecimento e tecnologia que lhes permitiram melhorar sua produtividade e gerar riqueza para seus cidadãos.

O exemplo clássico é a Coreia do Sul, cujo PIB per capita era inferior ao brasileiro nos anos 1960, mas hoje é mais de três vezes o nosso: US$ 36 mil ante US$ 10,7 mil, de acordo com o Banco Mundial. Enquanto o Brasil optou pelo modelo de substituição de importações - que segue reeditando até hoje, a despeito de seu comprovado fracasso -, a Coreia do Sul combinou abertura comercial com subsídios estatais destinados a setores escolhidos pelo governo para competir entre si.

Essa competição ampliou as habilidades dos trabalhadores sul-coreanos e resultou em maior produtividade, como revelou um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) ao comparar as políticas industriais adotadas pelos dois países.

O enriquecimento sul-coreano andou de mãos dadas com o grau de abertura econômica (relação entre a soma das exportações e importações e o PIB), que atualmente é de 86,4% do PIB. O índice está bem acima da média mundial, de 68,5%, e é quase três vezes superior à taxa brasileira, que amarga 35,3% do PIB.

Outra história de sucesso de integração comercial global é a China. Graças à política de portas abertas iniciada no fim dos anos 1970, a nação asiática integrou-se gradualmente à cadeia global de valor, convertendo-se na segunda maior economia do planeta em um curto espaço de tempo.

O Brasil, durante todo esse período, continuou fechado ao mundo, emendando períodos de crescimento medíocre com décadas perdidas. Com a exceção honrosa de empresas como a Embraer, o País segue desconectado do comércio internacional.

Ao mesmo tempo, a produtividade do trabalhador brasileiro está praticamente estagnada, o que explica por que o Brasil foi ultrapassado economicamente por países que, a despeito de seus muitos méritos, não contam com as mesmas vantagens territoriais, populacionais e de recursos naturais que nós possuímos.

Por negligenciar seu capital humano, o País desperdiça seu imenso potencial e adia a prosperidade de uma população que jamais se furtou a trabalhar duro. Tudo isso precisa mudar, ainda mais quando se tem o agravante do protecionismo do presidente dos EUA, Donald Trump.

Até a estupidez é forçada a dar um passo atrás diante de cadeias globais bem amarradas. Quanto mais empresas globais tiver, mais difícil será para o Brasil ser capturado pelas ondas protecionistas que vêm e que vão.

Assim sendo, o País precisa abrir-se ao mundo de forma contundente, o que inclui facilitar a entrada de profissionais estrangeiros qualificados, como fizeram nações que se tornaram desenvolvidas. A ojeriza brasileira às importações também precisa ter fim.

O próximo governo, seja qual for, precisará trabalhar desde o primeiro dia para que o indicador de Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) saia do patamar pífio de 16%. Trata-se do investimento em maquinários e equipamentos que permitem a fabricação de outros bens.

Países com FBCF baixo costumam depender de maquinários obsoletos, o que compromete a capacidade de produção local. Também é preciso, como defendeu o economista Edmar Bacha em artigo recente para o Valor ( Uma terceira via para a política industrial?

), que o País pare de tentar adivinhar quais setores industriais serão os "vencedores" e adote o critério da "exportabilidade com encadeamento local". Em vez de conceder benesses para "campeões nacionais" - nem sempre escolhidos de forma republicana -, o Estado deve direcionar incentivos e subsídios para empresas competitivas no mercado externo, mas que também estejam integradas à economia doméstica.

O desafio à frente do próximo governo não é nada trivial. Será preciso contrariar interesses poderosos e ser transparente em relação a setores que vierem a receber - ou perder - incentivos. Mas não há mais tempo a perder, especialmente porque a população já não cresce tanto e o País envelhece, o que só aumenta a necessidade de melhorar a produtividade.

Fonte: Estadão - 21/10/2026

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