Juros e inadimplência voltam a subir e refreiam novos empréstimos
Publicado em 31/03/2026 , por Folha Online
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Os juros para consumidores e empresas voltaram a subir em fevereiro, pressionando ainda mais a inadimplência e ajudando a refrear novos empréstimos, mostram dados do Banco Central publicados nesta segunda-feira (30).
Os números mostram que a taxa média de juros para pessoas físicas e jurídicas subiu de 32,7% ao ano em janeiro para 33% ao ano em fevereiro. A inadimplência do crédito com recursos livres (que exclui o financiamento imobiliário e rural) a consumidores passou de 6,7% a 6,9%, e a de empresas avançou de 3,1% para 3,3%.
Nesse cenário, os novos empréstimos tiveram queda em fevereiro na comparação com janeiro, em um movimento que deve se acentuar nos próximos meses.
As concessões a pessoas físicas e jurídicas somaram R$ 699,8 bilhões em fevereiro, na série que considera os ajustes sazonais. Isso representou uma queda de 0,5% na comparação com janeiro, segundo os dados do Banco Central.
"O resultado reflete o aperto das condições financeiras, com novo avanço dos juros bancários para pessoas físicas e aumento da inadimplência em ambas as carteiras", afirma a economista Isabela Tavares, da Tendências.
A especialista aponta que o spread (diferença entre o custo que as instituições financeiras pagam para captar recursos e os juros cobrados na ponta) no crédito ao consumidor subiu mais do que os juros. "Parte desse movimento reflete a piora da qualidade da carteira, com maior participação de modalidades de crédito emergenciais no último ano."
O chefe do departamento de Estatísticas do Banco Central, Fernando Rocha, destacou ainda que, ao olhar o estoque, o ritmo de crescimento do crédito está em desaceleração em qualquer uma das métricas observadas pela autoridade monetária (pessoas físicas, pessoas jurídicas, crédito livre ou crédito direcionado).
As modalidades de crédito com maior alta na taxa de juros foram cheque especial (7,8% ao mês) e cartão de crédito rotativo (15% ao mês).
O comprometimento de renda (parcela do orçamento familiar destinado ao pagamento de dívidas e despesas fixas) subiu 0,1 ponto percentual no mês, alcançando 29,3% em janeiro. Esse é o maior patamar da série histórica do BC, iniciada em março de 2011.
Para o técnico do BC, as operações de crédito emergencial, em especial do rotativo do cartão de crédito, tiveram papel relevante no crescimento desse comprometimento.
"Com a renda crescendo em ritmo ainda robusto mas, o peso das dívidas acumuladas pesando sobre o fluxo de caixa das famílias, a capacidade de pagamento tende a se deteriorar na margem", afirma Leonardo Costa, economista do Asa Investments.
Segundo a economista da Tendências, a expectativa é de nova elevação dos juros nos próximos meses, devido ao maior risco de crédito e ao aumento nos juros futuros.
"Mais à frente, no fim de 2026 e ao longo de 2027, a tendência é de melhora gradual das condições financeiras, com cortes na Selic [taxa básica de juros] reduzindo o custo de captação e avanços em renegociações e portabilidade aliviando a inadimplência."
Em relatório, o Goldman Sachs apontou que acredita que o crédito enfrentará dificuldades nos próximos meses, como consequência das condições monetárias restritivas e da moderação no crescimento e na dinâmica do mercado de trabalho.
"Por outro lado, o ativismo de crédito por parte dos bancos públicos e as novas linhas de financiamento patrocinadas pelo governo federal e bancos públicos devem amortecer o ciclo de crédito", afirmou o banco.
Fonte: Folha Online - 30/03/2026
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