Entenda como funcionava a fraude de R$ 845 mi contra espólio do fundador do grupo Unip-Objetivo
Publicado em 01/04/2026 , por Folha Online
O Ministério Público de São Paulo investiga um esquema que tentou criar uma dívida milionária contra o espólio de João Carlos Di Genio, fundador do grupo educacional Unip-Objetivo. Segundo os promotores, a fraude combinava documentos falsos, empresas de fachada e um procedimento arbitral simulado para dar aparência de legalidade à cobrança.
A vítima da organização criminosa é o espólio de João Carlos Di Genio, que detém um patrimônio bilionário em fase de partilha.
De acordo com o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), que conduz a operação em conjunto com o Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais), o grupo tentou impor ao espólio uma dívida que chegou a R$ 845 milhões. O valor teria começado menor e foi sendo inflado ao longo do tempo, conforme novas cobranças eram formalizadas com base em documentos forjados.
A estratégia mirava o inventário para tentar retirar recursos diretamente da herança.
Segundo o MP-SP, a fraude se baseou em um negócio imobiliário inexistente que teria sido celebrado apenas três meses antes da morte do empresário.
O grupo teria forjado documentos simulando a compra de 448 imóveis no município de Piraju (SP) pela empresa Colonizadora Planalto Paulista Ltda.. Laudos periciais confirmaram que as assinaturas de Di Genio e de seu procurador foram falsificadas por meio de decalque e montagem.
A investigação aponta três pilares principais:
A arbitragem é um instrumento legal e amplamente usado em disputas empresariais. As decisões arbitrais têm força semelhante à de uma sentença judicial.
Segundo o Ministério Público, o grupo se aproveitou disso para tentar dar aparência de legitimidade à fraude. O procedimento teria sido conduzido sem a participação da inventariante do espólio e com indícios de irregularidades, como a atuação de uma câmara arbitral sem reconhecimento e o uso de testemunhas questionadas.
Na prática, a sentença arbitral seria usada como atalho para cobrar a dívida no Judiciário. Uma suposta juíza arbitral teria proferindo uma sentença bilionária à revelia da vítima.
Segundo os investigadores, o grupo chegou a falsificar a assinatura do porteiro do edifício da inventariante para simular que o espólio havia sido notificado do processo.
A Justiça autorizou prisões temporárias, buscas e apreensões e o bloqueio de bens dos investigados. O objetivo, segundo a decisão, é interromper a atuação do grupo e evitar a destruição de provas.
Nesta terça-feira (31), foram cumpridos mandados de prisão contra nove investigados e 15 ordens de busca e apreensão em endereços ligados aos suspeitos e às empresas de fachada na capital paulista e na região metropolitana, em cidades como Guarulhos, Barueri e Jandira.
Também foi determinado o sequestro de ativos financeiros, imóveis e veículos, além da suspensão das atividades econômicas das empresas envolvidas.
Na decisão, o juiz Paulo Fernando Deroma De Mello, da 1ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores da Capital, no Foro Central Criminal Barra Funda, em São Paulo, afirmou que o grupo utilizava "estruturas de fachada" para instrumentalizar fraudes processuais e tentar induzir o Poder Judiciário ao erro.
Ao decidir pela necessidade das prisões, o magistrado disse que a medida era necessária pela "facilidade que teriam os averiguados na ocultação e destruição de provas, na coerção de testemunhas [...] além da continuidade das práticas delitivas".
A investigação do Ministério Público ocorre em meio a uma disputa pela herança de João Carlos Di Genio, que morreu em 12 de fevereiro de 2022, aos 82 anos, com um patrimônio estimado em aproximadamente R$ 100 bilhões. Ele não deixou testamento.
Além do grupo educacional, Di Genio tinha fazendas, emissoras de rádio, imóveis e uma marca de destaque na pecuária brasileira, focada na produção de touros Nelore de alto desempenho criados a pasto.
Após a abertura do inventário, Bruno Augusto de Mello Pará, declarou ser filho de Di Genio com uma ex-funcionária do Grupo Objetivo. Desde então, ele busca o reconhecimento da paternidade de Di Genio.
O corpo do empresário chegou a ser exumado no final do ano passado para a realização de um exame de DNA. O resultado saiu nesse ano. O resultado negativo. A defesa de Pará alega que o empresário custeava a casa e os gastos com saúde e educação de Pará e pede o reconhecimento da paternidade socioafetiva.
Di Genio teve três filhos com Sandra Miessa Di Genio, sua companheira em união estável e atual inventariante.
Fonte: Folha Online - 31/03/2026
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