Qual cenário você está comprando ao investir?
Publicado em 04/05/2026 , por Folha Online
Três amigos recebem a mesma notícia: os juros estão altos. O primeiro corre para investir em títulos prefixados, travando as taxas de juros futuras. O segundo investe nos títulos referenciados ao IPCA (inflação oficial). Já o terceiro decide acompanhar as decisões de política monetária e segue com os títulos referenciados ao CDI e à Selic.
No fim, cada um acredita estar sendo prudente e conservadores em sua escolha. Afinal, os três irão ganhar uma taxa de juros sobre seus investimentos e estão se protegendo sobre o que mais os preocupa.
Mas, na prática, cada um está fazendo uma aposta diferente sobre o futuro, que pode ser mais ou menos favorável do que as outras duas alternativas.
Investir nunca é neutro. O risco está em não entender sobre o que está escolhendo se proteger e para qual cenário está investindo. A sugestão de destacar essas condições foi do amigo e leitor Felipe Avezani.
Em qualquer das escolhas, é importante entender o que o mercado já considera nos preços negociados. Por exemplo, não é porque se acredita que a Selic irá cair que se investe em um título prefixado. É preciso primeiro saber o que o mercado já considera de queda nas taxas futuras negociadas. Assim, vamos começar pelo título prefixado.
No prefixado, não há essa sensação de abrigo. Há convicção. Você olha para a taxa disponível hoje e decide travá-la porque acredita que, no futuro, ela não estará mais lá. Ou seja, você acredita que o mercado será surpreendido por quedas mais fortes da Selic.
É uma escolha que premia quem antecipa movimentos de queda de juros. Mas também expõe o investidor a um desconforto inevitável. Por exemplo, nesse momento, o título público Tesouro Prefixado 2029, com vencimento em 31/12/2028 é negociado a 13,69% ao ano. Mas a Selic está em 14,5% ao ano. Logo, você começa com um rendimento menor que o da Selic e só vai ganhar dela se ela cair abaixo de 13% ao ano de forma rápida para que a média até o fim de 2028 fique menor que a taxa contratada.
O erro, aqui, não aparece apenas no vencimento. Ele aparece no caminho, testando a disciplina de quem pode ter acreditado cedo demais.
Quando você escolhe um título atrelado ao IPCA, a sensação pode ser de proteção. Mas proteção contra o quê? Ao escolher esse título, você está se protegendo para um cenário adverso em que a inflação surpreende. Mas também fazendo uma aposta similar à mencionada no título prefixado. Só que sobre os juros reais.
Mas há um detalhe incômodo: se o cenário for mais estável do que se imagina —inflação controlada e juros reais mais altos—, o retorno de seu título pode ficar abaixo do CDI. A proteção existe, mas cobra um prêmio.
E então vem o CDI, frequentemente tratado como ausência de opinião. Ou proteção contra oscilações de mercado. Mas não existe ausência de opinião no mercado.
Ao investir em pós-fixados, você está, na prática, acreditando que o mercado já está otimista demais em relação aos movimentos do Banco Central e, portanto, prefere seguir a definição da política monetária. Ou que o Banco Central não será surpreendido com um salto na inflação, fazendo com que o juro real implícito na Selic seja menor que o esperado.
Ou seja, está apostando que a inflação pode seguir pressionada, acima da meta, mas ainda assim controlada, com a economia ainda aquecida, e que os membros do Comitê de Política Monetária do BC serão isentos em manter a taxa de juros elevada por mais tempo do que o mercado espera.
O problema é que essa escolha também tem consequência. Se os juros caem mais rápido do que o esperado, a rentabilidade de quem escolheu esse indexador cai junto.
Perceba que nenhum dos três investidores está "certo" por definição. Eles apenas escolheram cenários diferentes sobre os quais desejavam se proteger ou se expor.
É aqui que está o ponto central. O investidor raramente erra por falta de acesso à informação. Ele erra por não entender a natureza da própria decisão. IPCA, prefixado ou CDI, não são apenas indexadores. São formas distintas de se posicionar diante da incerteza.
E ignorar isso não elimina o risco —apenas o torna invisível. No fim, investir em renda fixa não evita apostas. É preciso escolher, conscientemente, qual risco você está disposto a carregar e se proteger. Não importa qual indexador escolheu concentrar os investimentos, o maior risco, quase sempre, é acreditar que você não está correndo nenhum.
Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor.
Fonte: Folha Online - 02/05/2026
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