Master usou fundo de R$ 5,4 bi para esconder dívidas de empresas ligadas ao banco
Publicado em 26/05/2026 , por Folha Online
O fundo SDG II comprou R$ 3,6 bilhões em empréstimos ligados à fraude de Daniel Vorcaro, em uma manobra para limpar o balanço do Master e se desfazer de créditos de má qualidade.
A venda desses créditos melhorou no papel a situação do Master, que passou a ter mais espaço financeiro para fazer novos empréstimos e também para captar recursos via CDB (Certificados de Depósito Bancário). Isso porque o impacto de um eventual calote saiu das contas do banco e ficou para os cotistas do SDG II. Depois da operação, a tarefa de cobrar os empréstimos também passou a ser do fundo.
Segundo apurações sobre a conduta do Master, o uso dos fundos fechava o ciclo de fraudes que funcionaria da seguinte maneira: 1. o banco captava dinheiro com CDBs; 2. o montante captado era emprestado para empresas de fachada, que aplicavam os valores em fundos; 3. os fundos por sua vez usavam parte do dinheiro para comprar os empréstimos feitos pelo Master para as companhias de fachada.
Esses empréstimos não eram cobrados, beneficiando empresas que não pagavam o que deviam. O calote, em vez de recair sobre as contas do Master — o que apareceria nos controles do BC (Banco Central) —, ficava no fundo, cuja denominação técnica é FIDC (Fundo de Investimentos em Direitos Creditórios).
O fundo SDG II continua ativo, com R$ 5,4 bilhões, e tem dois cotistas, segundo dados da CVM (Comissão de Valores Mobiliários).
Um deles é o Hans 95, fundo central na teia de fraudes do Master. A participação do Hans 95 se dá por meio do fundo Anna, um dos seis fundos fraudulentos identificados pelo BC no início das investigações contra o Master. O outro é a empresa MKS Soluções Integradas, uma das 36 companhias que, segundo as investigações, fizeram empréstimos simulados no Master.
As operações analisadas pela Folha aconteceram de 2020 a 2024.
Procurado por meio de sua assessoria de imprensa desde o último dia 8, o Banco Master não respondeu aos questionamentos da reportagem.
O balanço do SDG II mostra que, dos R$ 3,6 bilhões em ativos ligados à fraude do Master, pelo menos R$ 1,1 bilhão são de direitos creditórios vendidos diretamente pelo Master ao fundo. Não é possível saber quem tomou o empréstimo que originou essa operação.
A companhia que mais recebeu é a Lormont Participações, com quase R$ 553 milhões. Desse total, R$ 102 milhões pelo menos foram vendidos ao fundo pelo Master. A empresa é ligada ao empresário Nelson Tanure.
Tanure informou via assessoria de imprensa que foi cliente do Master "nas mesmas condições em que foi e segue sendo atendido por outras instituições financeiras, numa relação de operações financeiras corriqueiras que fazem parte do cotidiano da vida profissional de empresários e investidores de todo mercado de valores mobiliários".
"O empresário não tem conhecimento sobre hipotética cessão de crédito entre as próprias instituições financeiras", acrescentou.
Em segundo lugar entre as empresas que tomaram empréstimos depois repassados ao fundo vem o Banvox, que foi de Mauricio Quadrado, ex-sócio de Vorcaro no Master. O SDG II possui uma debênture do Banvox no valor de R$ 380 milhões.
Hoje essas debêntures estão em nome da DV Holding, empresa de Vorcaro. A troca aconteceu quando Quadrado saiu do Master, entregando suas ações no banco. Nesse processo, as debêntures da Banvox, emitidas para a compra da participação no Master, passaram a se referir à DV.
"As eventuais operações de compra e venda dessas debêntures foram realizadas exclusivamente entre os respectivos detentores/credores dos papéis no mercado secundário, sem participação da Banvox", disse a assessoria de imprensa da empresa. "A Banvox Holding não vendeu nenhum ativo para qualquer FIDC ligado ao Master ou a terceiros".
Uma debênture é um título de dívida. Quem emite o papel se compromete a pagar um valor determinado em certo prazo. Em troca, recebe recursos.
Outra empresa que aparece no balanço do SDG II é a Super Empreendimentos e Participações. O fundo tem R$ 22 milhões em créditos a receber da empresa. A Super funcionava como o braço financeiro de Vorcaro e, como revelou a Folha, era dona da casa que o ex-banqueiro utilizava em Brasília.
O SDG II faz parte de um grupo de 82 FIDCs que fazem parte da rede do Master identificados pela Folha. Ao todo, eles possuem R$ 65,5 bilhões em ativos. O SDG II é o quarto maior da lista.
Outro fundo do grupo é o Lancia!, que ilustra bem como as empresas cujos empréstimos eram repassados aos fundos se livravam de ter que pagar a dívida.
No último balanço do fundo, de 30 de junho de 2024, há informações sobre duas debêntures diferentes que o fundo possui da NGV SPE, totalizando R$ 30 milhões. A empresa é ligada a Augusto Lima, que foi sócio de Vorcaro no Master.
As primeiras debêntures foram emitidas em 2018, com vencimento do valor principal em 10 de abril de 2022. Os juros começariam a ser pagos a partir de 10 de abril de 2020, mas os pagamentos foram sendo adiados. Em um último aditivo ao contrato, em 5 de abril de 2022, o vencimento da primeira parcela de juros foi para 10 de abril de 2024, e o pagamento do principal para 10 de abril de 2026. Não há mais informações sobre a debênture.
A segunda debênture tinha 16 de abril de 2020 como data de vencimento da primeira parcela. Em 2 de abril daquele ano, um aditivo jogou o prazo para 16 de abril de 2022. Em 5 de abril de 2022, onze dias antes da data do primeiro pagamento, uma mudança no contrato levou a data para 16 de abril de 2024.
Lima não respondeu aos questionamentos da reportagem.
Fonte: Folha Online - 26/05/2026
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