Quem é a Teka, centenária indústria têxtil de SC que teve a falência cancelada pela Justiça
Publicado em 10/06/2026 , por Exame
Decisão unânime da 2ª Câmara de Direito Comercial do Tribunal de Justiça de Santa Catarina dá um novo capítulo a uma disputa que se arrasta desde 2012
No Vale do Itajaí, em Santa Catarina, fica um dos maiores polos têxteis do país. Foi ali que nasceram marcas que abasteceram as casas brasileiras por décadas. Foi ali também que a concorrência dos produtos asiáticos, mais baratos, passou a apertar as indústrias locais a partir dos anos 2000.
A Teka, fabricante de cama, mesa e banho fundada em 1926 em Blumenau, virou um dos casos mais extremos dessa pressão, numa novela de recuperação judicial que remota a 2012.
O novo capítulo é uma decisão unânime da 2ª Câmara de Direito Comercial do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, deferida hoje, que revoga a sentença que havia convertido a recuperação judicial da empresa em falência.
Os desembargadores determinaram que o juiz de primeira instância reexamine o processo a partir das conclusões de uma auditoria independente já anexada aos autos, antes de qualquer nova decisão sobre o destino da companhia.
A reviravolta dá sobrevida a uma indústria que emprega cerca de 1,7 mil pessoas em duas fábricas, em Blumenau (SC) e Artur Nogueira (SP), e que carrega um passivo que ultrapassa 3,5 bilhões de reais — somando dívidas trabalhistas, tributárias e com fornecedores.
É a terceira vez que a Justiça muda o rumo do caso em pouco mais de um ano: a recuperação judicial virou falência em fevereiro de 2025, a falência foi suspensa por liminar em março do mesmo ano, e agora um colegiado confirma a suspensão e devolve a palavra final ao juiz de origem.
A disputa expõe um impasse central: de um lado, a administração judicial defendeu por anos que a companhia não tinha condições de cumprir o plano de recuperação e deveria ser liquidada.
De outro, o fundo de investimentos Alumni FIP, que se tornou um dos principais acionistas, sustenta que o passivo tributário poderia ser drasticamente reduzido com adesão a programas de parcelamento e que a operação vinha melhorando.
A auditoria independente é justamente o instrumento que o tribunal escolheu para apurar quem tem razão.
Enquanto a Justiça decide, a Teka tenta encerrar o capítulo judicial e voltar a crescer.
A empresa projeta faturar 720 milhões de reais em 2026, alta de 44% sobre o ano anterior, e prepara a modernização de seus dois parques fabris, a abertura de lojas e o lançamento de um e-commerce próprio.
O movimento coincide com o ano em que a companhia completa um século de existência.
Qual é a história da Teka
A Teka começou pequena. Em 1926, o imigrante alemão Paul Fritz Kuehnrich montou uma primeira oficina em um espaço anexo à própria casa, em Blumenau, com uma máquina de matelar, duas de costura reta e uma mesa de preparação de edredons. Todo o trabalho era manual.
Em 1935, o negócio se tornou uma sociedade anônima, batizada de Companhia Kuehnrich S.A.
Seis anos depois, em 1941, mudou a razão social para Tecelagem Kuehnrich S.A. e adotou o logotipo TK. A sonoridade das duas letras acabou virando o nome definitivo da marca, curto e fácil de repetir: Teka.
Nas décadas seguintes, a empresa cresceu junto com o Vale do Itajaí e se tornou uma das maiores fabricantes de artigos de cama, mesa e banho da América Latina.
Nos anos 1960, começou a exportar; em 1968, fechou contrato com distribuidores na África do Sul. Entre os anos 1970 e 1990, viveu o auge, com fábricas em Blumenau (SC), Indaial (SC) e Artur Nogueira (SP) e produtos presentes na maioria dos lares brasileiros.
Como a Teka entrou em crise
A virada começou nos anos 2000. A abertura comercial e a entrada de produtos têxteis asiáticos, vendidos a preços com que a indústria nacional não conseguia competir, corroeram a margem da Teka.
A valorização do real no mesmo período encareceu os produtos brasileiros no exterior e derrubou as exportações: a empresa, que chegou a vender fora 35% do que produzia, viu esse porcentual despencar para 3% no auge da crise.
A esses fatores se somaram os custos elevados de produção e a oscilação no preço do algodão, principal insumo. O resultado apareceu no balanço: antes mesmo de recorrer à Justiça, a companhia já acumulava mais de 1 bilhão de reais em prejuízos.
Em 2012, sem capital de giro para sustentar a operação, a Teka entrou com pedido de recuperação judicial. À época, o passivo a descoberto — a diferença negativa entre o que a empresa devia e o que possuía — era de 780,9 milhões de reais. Era o reconhecimento formal de que o negócio não conseguia mais pagar suas contas sozinho.
A recuperação, porém, não estancou a sangria. A dívida continuou crescendo ao longo dos anos, sobretudo a parcela tributária.
Em 2017, a Justiça entregou o comando a um administrador judicial.
O caso ganhou contornos de folhetim a partir do fim de 2024. Em 27 de fevereiro de 2025, o juízo da Vara Regional de Falências e Recuperação Judicial de Jaraguá do Sul converteu a recuperação em falência, no modelo de "falência continuada" — em que a empresa segue operando enquanto os ativos são vendidos para pagar credores. A administração judicial argumentou que a crise era irreversível e que a liquidação preservaria empregos e fornecedores.
A decisão durou menos de um mês. Em 20 de março de 2025, o desembargador Robson Luz Varella, do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, concedeu liminar suspendendo a falência.
Para o magistrado, a quebra havia sido decretada antes da conclusão de uma auditoria que o próprio juízo determinara, e o processo apresentava números inconsistentes sobre o tamanho da dívida. A recuperação judicial foi restabelecida.
No recurso acolhido pela Justiça, o fundo Alumni FIP sustentou que a falência interessaria principalmente ao administrador judicial, que pode ser remunerado em até 5% do valor de venda dos bens em um processo falimentar. Os representantes do fundo argumentaram ainda que o passivo tributário — calculado em cerca de 2,3 bilhões de reais — poderia ser reduzido a algumas centenas de milhões com a adesão tempestiva a programas de parcelamento federal e estadual, mecanismo que, segundo eles, não foi acionado a tempo.
O capítulo mais recente é a decisão de 9 de junho de 2026. Ao julgar o mérito do agravo, a 2ª Câmara de Direito Comercial confirmou a medida de urgência e cassou a sentença de falência por unanimidade.
Em vez de encerrar a disputa, o colegiado devolveu o caso ao juiz de origem, que deverá proferir uma nova decisão depois de examinar as conclusões da auditoria independente. Ou seja: a falência está afastada por ora, mas a palavra final ainda depende do que a perícia apontar sobre a real capacidade de recuperação da empresa.
Cem anos depois da primeira máquina de matelar montada nos fundos da casa de Paul Fritz Kuehnrich, o futuro da empresa segue indefinido.
Fonte: Exame Online - 09/06/2026
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