Para analistas, BC sinaliza que convergência da inflação para a meta ficará para 2028
Publicado em 18/06/2026 , por Folha Online
Especialistas que acompanham a política monetária afirmam que o BC (Banco Central) dá sinais de que a inflação só vai convergir para o centro da meta de 3% em 2028 e que neste ano o resultado vai estourar o teto estabelecido de 4,5%.
Nesta quarta-feira (17), o Copom (Comitê de Política Monetária) reduziu a Selic, a taxa básica de juros, em 0,25 ponto percentual, para 14,25%, no terceiro corte consecutivo desde março.
No comunicado divulgado após a decisão, o comitê afirma que, se mantivesse os juros em patamar necessário para levar a inflação à meta ao término de 2027, eles acabariam derrubando o índice para um patamar abaixo do alvo no primeiro trimestre de 2028 —sem dizer quanto exatamente.
O plano inicial era fazer uma série de diminuições da mesma intensidade. No entanto, o cenário foi revisto com o conflito no Oriente Médio, que fez com que as expectativas de inflação piorassem.
Há ainda a possibilidade de outros choques exógenos, como altas de preços ligadas ao El Niño (que pode ter impacto na conta de luz e nos alimentos) e de uma mudança da jornada de trabalho. Para os especialistas, não está claro, no entanto, se o ciclo de cortes chegou ao fim.
Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, afirma que os dados referentes ao mercado de trabalho e consumo indicam que a economia ainda está resiliente, mas que o investimento está desacelerando.
"A inflação já não estava controlada, apenas se encaminhando para chegar à meta, e isso fica cada vez mais distante, e o BC começa a falar de 2028. A ideia é que 2026 um caso perdido, 2027 pode ser outro e, talvez, em 2028 se consiga alcançar", disse.
Rafael Cardoso, economista-chefe do Daycoval, afirma que os efeitos da política monetária são longos, incertos e também cumulativos.
A próxima reunião do Copom acontece no início de agosto. Quando esse encontro ocorrer, o horizonte relevante da política monetária já vai incluir o primeiro trimestre de 2028.
Em sua nota, o Copom afirma que fez simulações que mostram que é preciso continuar a suavizar a política monetária agora para que a inflação não fique abaixo da meta de 3% no começo de 2028.
"O Copom não vai largar a meta de 2027, mas talvez não seja o centro, porque se ele fizer isso [apertar a política monetária], vai errar a inflação para 2028", afirma Cardoso. O economista ainda diz que vai aguardar mais informações sobre essas simulações na ata da reunião.
Ele não é o único: Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica Investimentos, diz que o comunicado "foi um pouco confuso, de modo que a ata será especialmente relevante para entendermos melhor o plano de voo".
Rafael Ihara, economista-chefe da Meraki Capital, afirma que, no comunicado desta quarta-feira, houve um destaque para as simulações.
Lucas Barbosa, economista da AZ Quest Investimentos, vai pela mesma linha: em 2028 já vai ter passado todo o choque do petróleo e o efeito do El Niño deste ano e, sem esses fatores externos, a projeção aponta para uma inflação abaixo da meta.
Os analistas que acompanham a política monetária afirmam que o BC sinalizou que neste ano há dificuldades relacionadas às eleições. Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, diz que o comunicado reconhece a piora do cenário doméstico desde abril.
"A projeção de inflação para 2026 saltou de 4,6% para 5,2%, e a estimativa para o 4º trimestre de 2027, horizonte relevante da política monetária, subiu de 3,5% para 3,7%, aproximando-se do teto da meta."
Ele afirma então que, pela primeira vez, o BC citou explicitamente os estímulos à demanda, que seria uma referência a um impulso fiscal eleitoral, como fator de risco inflacionário.
Sérgio Samuel dos Santos, economista do Sistema Ailos, também diz que o comitê cita, entre os riscos inflacionários, a política fiscal e os estímulos econômicos.
Vale, da MB Associados, também afirma que a vida do BC fica mais difícil com um comportamento fiscal e parafiscal expansionista.
Fonte: Folha Online - 18/06/2026
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