Inflação dos mais pobres é o dobro da registrada por mais ricos em maio
Publicado em 25/06/2026 , por Folha Online
A inflação das famílias com renda muito baixa no Brasil foi de 0,83% em maio, sob impacto da alta dos preços da alimentação no domicílio e da energia elétrica, apontam cálculos do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).
O índice desacelerou em relação a abril, quando foi de 0,92%, mas seguiu como o maior do levantamento pelo segundo mês consecutivo. O Ipea investiga a inflação da cesta de consumo de seis faixas de renda da população.
A taxa das famílias mais pobres em maio (0,83%) foi mais do que o dobro da observada entre as mais ricas, com renda alta (0,38%).
A diferença havia sido ainda maior em abril. Na ocasião, a inflação da renda muito baixa (0,92%) foi quase o quádruplo da registrada pelo grupo mais rico (0,24%).
O índice da renda alta foi o único da pesquisa que acelerou na passagem de abril para maio. A taxa dessa camada, porém, seguiu como a menor das seis faixas de renda pelo segundo mês consecutivo.
Conforme o Ipea, o aumento dos preços dos alimentos consumidos no domicílio (1,65%) e o reajuste da conta de luz (3,67%) explicam a inflação mais intensa para quem ganha menos em maio.
A carestia da comida e da energia elétrica afeta os diferentes grupos da população, mas pesa mais para as famílias com renda menor.
Isso ocorre porque os mais pobres têm um orçamento reduzido e uma cesta de compras mais restrita aos itens básicos do dia a dia.
No grupo com renda muito baixa, o rendimento domiciliar é inferior a R$ 2.299,82 por mês. Entre os mais ricos, com renda alta, o valor supera R$ 22.998,22 por mês.
A inflação dos grupos é calculada pelo Ipea a partir de dados do IPCA, o índice oficial de preços do país divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
As cestas de bens e serviços de cada faixa de renda são adaptadas a cada realidade de consumo.
Rendimento mensal domiciliar
Renda muito baixa: menor que R$ 2.299,82
Renda baixa: entre R$ 2.299,82 e R$ 3.449,73
Renda média-baixa: entre R$ 3.449,73 e R$ 5.749,55
Renda média: entre R$ 5.749,55 e R$ 11.499,11
Renda média-alta: entre R$ 11.499,11 e R$ 22.998,22
Renda alta: maior que R$ 22.998,22
O IPCA, em termos gerais, foi de 0,58% em maio. O índice foi o maior para o mês desde 2021, embora tenha desacelerado ante abril (0,67%).
A alimentação no domicílio (1,65%) teve a alta de preços mais intensa para maio desde 2008 (2,27%). Analistas associaram o resultado à redução da oferta de parte dos produtos e ao frete mais caro.
O transporte rodoviário foi pressionado pela alta do óleo diesel logo após o início da guerra no Irã, em 28 de fevereiro.
Em maio, porém, os combustíveis até geraram alívio para a inflação dos diferentes grupos da população.
O diesel caiu 2,34% no IPCA do mês passado, sem compensar totalmente os avanços depois do começo da guerra. O produto subiu 13,9% só em março e mais 4,46% em abril.
Um movimento semelhante aconteceu com a gasolina, que baixou 1,46% em maio. O produto, contudo, registrou altas de 4,59% em março e de 1,86% em abril.
Segundo o Ipea, outro fator de alívio para a inflação do mês passado veio dos produtos farmacêuticos. A alta dos preços dessas mercadorias desacelerou a 0,35% no IPCA de maio, após marcar 1,77% em abril.
A inflação em ano eleitoral preocupa o governo Lula (PT), que adotou um pacote de medidas para frear a carestia dos combustíveis. O presidente deve concorrer à reeleição em outubro.
O horizonte da inflação no segundo semestre tem o desafio do fenômeno climático El Niño, que altera a distribuição de chuvas. Previsões indicam risco de um evento com forte intensidade.
Caso se confirme, a situação pode dificultar a produção agropecuária, com eventuais repasses para os preços.
Tradicionalmente, o El Niño aumenta o risco de seca nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, enquanto favorece chuvas fortes no Sul.
No acumulado deste ano até maio, a faixa de renda muito baixa apresenta inflação de 3,46%, a maior do levantamento do Ipea. A carestia dos alimentos também pressionou a taxa nesse recorte.
O grupo com rendimento alto registra a variação menos intensa (2,83%). Trata-se da única taxa abaixo de 3%. O resultado menor reflete quedas de preços de passagens aéreas e transporte por aplicativo, conforme o Ipea.
No acumulado de 12 meses, o cenário mostra diferenças. São as famílias com renda alta que mostram a maior inflação nesse recorte.
A variação da cesta dos mais ricos foi de 5,26% até maio. É a única acima de 5%.
Já as famílias com renda muito baixa acumularam inflação de 4,29% nos 12 meses até maio. É a menor da pesquisa.
Antes da pressão em 2026, os preços dos alimentos haviam mostrado trégua no segundo semestre do ano passado.
Isso contribuiu para levar a inflação das famílias de menor renda para um patamar mais baixo no acumulado de 12 meses.
Fonte: Folha Online - 25/06/2026
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