Previdência do TO vende só 17 dos 60 imóveis recebidos do Master para cobrir perdas com Banco Máxima
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Previdência do TO vende só 17 dos 60 imóveis recebidos do Master para cobrir perdas com Banco Máxima

Publicado em 29/06/2026 , por Folha Online

O envolvimento do Igeprev-TO (Instituto de Gestão Previdenciária do Estado do Tocantins) com o antigo Banco Máxima –que depois virou Master– levou o fundo de previdência dos servidores do estado a assumir 60 imóveis espalhados pelo Brasil, dos quais agora ele tenta se desfazer.

O Igeprev fez um investimento malsucedido no fundo Viaja Brasil, do Máxima, e acabou tomando um prejuízo de R$ 13 milhões depois que o veículo de investimento foi liquidado em 2014.

Em 2022, alvo de uma ação do Ministério Público Estadual, o banco, já sob o comando de Vorcaro e com o nome de Master, transferiu ao instituto 60 imóveis em São Paulo, Goiás, Minas Gerais, no Paraná e no Rio de Janeiro, para cobrir o prejuízo.

O Master não respondeu ao pedido de comentário feito pela Folha, por email.

A Justiça homologou o acordo, mas o Igeprev relata até hoje dificuldade em transformar esses imóveis em dinheiro e recuperar o valor perdido. O instituto de previdência conseguiu vender só 17 dos 60 apartamentos, salas comerciais e lotes, recuperando R$ 2,8 milhões –ou 21% do prejuízo.

Em 2022, o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), órgão de inteligência ligado ao Ministério da Fazenda, levantou dúvidas sobre o valor de um dos imóveis. Relatório emitido pelo órgão aponta que o Master deu em pagamento ao Igeprev um imóvel de R$ 591 mil que até então era registrado pelo banco por R$ 76 mil.

A reportagem perguntou sobre o alerta do Coaf ao governo do Tocantins, que administra o Igeprev, mas o estado não quis se manifestar sobre o assunto.

Os imóveis transferidos pelo Master compõem hoje um fundo de investimento imobiliário. O pacote inclui quartos de hotel em Belo Horizonte e Sete Lagoas (MG), lotes vazios em Curitiba, salas comerciais e apartamentos no Rio de Janeiro, e até uma casa no município de Rio das Ostras (RJ) avaliada em R$ 137 mil.

Também constam dois lotes em um condomínio rural de Araçariguama, no interior de São Paulo, avaliados em cerca de R$ 2 milhões. Junto com os terrenos de Curitiba (R$ 2,1 milhões), formam o conjunto mais valioso entre os imóveis que foram para o Igeprev.

Em nota, o governo do Tocantins disse que os 43 imóveis remanescentes seguem em processo gradual de regularização e venda "com potencial de continuidade na recuperação patrimonial e geração de novas receitas".

O Ministério Público do Tocantins disse que os imóveis foram avaliados presencialmente, com apoio dos centros de apoio operacional às Promotorias de Justiça de Defesa do Patrimônio Público dos estados e com a participação de perito especializado indicado pelo Igeprev.

"O acordo somente foi homologado judicialmente após a conclusão das avaliações e a efetiva transferência das escrituras dos imóveis", afirma o Ministério Público, destacando que o plano de gestão dos imóveis foi aprovado pelo Ministério da Previdência Social.

Segundo a última demonstração financeira do fundo de investimento, o valor dos imóveis na carteira envolve "elevado nível de julgamento", já que as técnicas de apreciação a valor justo decorrem de laudo elaborado por terceiros.

O auditor independente relata ter tratado do assunto, confirmando a propriedade dos imóveis, confrontando informações extraídas da documentação com registro de controle interno da carteira de ativos, e "obtendo o entendimento acerca dos critérios de avaliação a valor justo". Não cita, porém, se revisou as estimativas de valor em si, que são feitas por uma consultoria externa.

O prejuízo do Igeprev –e os imóveis que ele depois recebeu– tiveram origem em aportes realizados em 2012 e 2013 no fundo Viaja Brasil, gerido pelo Banco Máxima. O fundo alocou todo o seu capital em ações do conglomerado Graça Aranha, a holding do grupo de turismo Marsans, do doleiro Alberto Youssef.

A falência do Graça Aranha em 2014 derrubou o valor das cotas do fundo Viaja Brasil, deixando os investidores, quase todos eles RPPS (regimes próprios de previdência social), sem os recursos. Os institutos de previdência da Amontada (CE), Cuiabá (MT), Hortolândia (SP), Holambra (SP), Paranaguá (PR), Petrolina (PE), também investiram no Viaja Brasil.

Como o fundo Viaja Brasil era o único dono da Marsans à época da decretação de falência, ex-funcionários da empresa moveram ações trabalhistas cobrando valores do Igeprev, segundo registra um relatório do instituto.

Procurado, o empresário Saul Sabbá, antigo dono do Banco Máxima, afirmou que a Marsans era considerada naquele momento uma das relevantes operadoras do setor de turismo.

"O insucesso do investimento decorreu de um conjunto de fatores posteriores, incluindo dificuldades operacionais, financeiras e reputacionais que afetaram a companhia e, consequentemente, o fundo, que possuía concentração relevante nesse ativo", disse.

"É importante registrar que o Banco Máxima também foi investidor relevante no fundo e sofreu perdas expressivas em decorrência do mesmo evento. Portanto, não houve qualquer benefício para a instituição em razão do desfecho do investimento; ao contrário, ela também foi diretamente prejudicada", completou.

Em janeiro de 2023, o colegiado da CVM, de forma unânime e com voto do atual presidente, Otto Lobo, decidiu condenar o conglomerado Máxima e o seu antigo dono, Saul Sabbá, por falta de diligência na gestão do Viaja Brasil.

Segundo a acusação da superintendência do órgão, os gestores do Viaja Brasil se basearam em avaliações de valor antigas e com dados contraditórios para realizar os aportes, e também ignoraram alertas da falta de informações sobre o conglomerado Marsans.

O Máxima disse, na defesa, ter usado como base um relatório de valuation de 2011 que estipulava em R$ 120 milhões o valor da Graça Aranha, holding do grupo Marsans. No entanto, com exceção de uma das empresas do grupo, as margens de lucro do conglomerado eram todas negativas, diz a acusação.

Além disso, a Marsans deixou de publicar as demonstrações financeiras do ano de 2013. "O que aconteceu foi o seguinte: eu não concordava com os números, eles criaram números muito fictícios e daí eu me recusei a soltar as demonstrações", disse uma contadora da empresa aos auditores da CVM, segundo registra a sentença.

"Respeito as decisões do regulador, embora não concorde integralmente com alguns dos entendimentos adotados sobre os fatos e responsabilidades da época", afirmou Saul Sabbá em resposta à Folha. "Minha atuação sempre se deu de boa-fé, dentro das informações disponíveis e das atribuições inerentes à função exercida".

"Também cabe esclarecer que o ressarcimento se deu já fora da minha gestão e participação na instituição, no âmbito de acordo celebrado pelo banco sucessor [Master], com acompanhamento do Ministério Público Estadual."

Vorcaro tentou assumir o controle do Máxima em 2017, mas só obteve autorização do Banco Central em 2019. Dois anos depois, em 2021, ele mudou o nome do banco para Master.

Fonte: Folha Online - 29/06/2026

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