Polícia de SP indicia executivos do Goldman Sachs por suspeita de fraudes na Oncoclínicas
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Polícia de SP indicia executivos do Goldman Sachs por suspeita de fraudes na Oncoclínicas

Publicado em 11/08/2026 , por Folha Online

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A Polícia Civil de São Paulo indiciou dois executivos do Goldman Sachs por suspeita de terem participado de um esquema de manipulação de mercado envolvendo um fundo de investimentos que é sócio da Oncoclínicas.

De acordo com o documento policial, Felipe Guerra Acosta, superintendente executivo do Goldman Sachs no Brasil, e Natan Lima Reinig, ex-membro do conselho de administração da rede de oncologia indicado pelo banco, teriam induzido a companhia, a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e a B3 a erro sobre a real composição societária do fundo de investimentos Josephina.

O despacho de indiciamento foi assinado na sexta-feira (7) pelo delegado José Eduardo Jorge, da 15ª Delegacia de Polícia da capital, porém o documento só foi protocolado nesta segunda (10).

Segundo o documento, ao qual a Folha teve acesso, os dois executivos são indiciados pelos crimes de estelionato e de fraudes e abusos na administração de sociedade por ações.

A investigação apura se o Goldman escondeu, em prospectos e demonstrações financeiras divulgados ao mercado, que parte da fatia sempre atribuída ao banco na Oncoclínicas pertencia, na verdade, à gestora norte-americana Centaurus Capital.

As investigações querem descobrir se essa suposta omissão evitou a realização de uma OPA (oferta pública de aquisição de ações). No caso, trata-se da OPA prevista no estatuto da companhia, que obriga o investidor que ultrapassa determinado percentual do capital a fazer uma oferta de compra aos demais acionistas.

Cláusulas desse tipo, conhecidas como poison pills, servem para proteger os minoritários da concentração gradual de participação sem pagamento de prêmio.

Em nota, o Goldman Sachs negou irregularidades. "Essas alegações da Latache não têm fundamento. Continuamos acreditando que agimos de forma adequada."

A movimentação contra o Goldman Sachs e a Centaurus teve início com a gestora Latache, que hoje detém 14,5% das ações da Oncoclínicas. O documento, no entanto, não cita a gestora no caso.

O núcleo da investigação é uma correspondência datada de 4 de novembro de 2024, assinada por Acosta e Reinig e endereçada à Oncoclínicas. Nela, os dois afirmam que a criação do fundo Josephina III, veículo utilizado para reorganizar a participação do Goldman e da Centaurus na companhia, teria segregado interesses de investidores indiretos que já eram detidos pela Centaurus.

Com base nessa tese, os executivos sustentaram que não havia obrigação de disparar a cláusula de poison pill nem realizar uma OPA.

Para o delegado, no entanto, a versão contradiz o que o próprio Goldman informou ao mercado quando a Oncoclínicas abriu capital, em 2021. No prospecto de IPO, que teve o banco como coordenador líder da oferta, o Goldman era listado como titular indireto de 100% das cotas dos fundos Josephina I e II, sem qualquer menção à Centaurus como titular indireta relevante.

Fundada em 2010 por Bruno Lemos Ferrari, a Oncoclínicas é a maior rede oncológica privada do Brasil, com 142 unidades, 1.700 médicos e 593 mil tratamentos anuais. Após IPO em 2021, a rede cresceu agressivamente e, em 2024, o Banco Master, de Daniel Vorcaro, adquiriu 20,18% da companhia via fundos, sendo investigado no Cade por gun jumping —termo usado para operações consumadas antes da notificação e aprovação do órgão antitruste.

O inquérito contra o Goldman ainda traz o depoimento de Bruno Ferrari, que foi CEO da Oncoclínicas. Segundo o despacho, o empresário afirmou que todas as informações recebidas indicavam que os fundos Josephina I e II eram vinculados exclusivamente ao Goldman Sachs.

Ferrari disse ainda nunca ter recebido, antes de novembro de 2024, qualquer comunicação de que a Centaurus fosse titular indireta de participação relevante na companhia.

À polícia Acosta declarou que a Centaurus detinha participação na Oncoclínicas desde 2017, mas admitiu nunca ter tido acesso aos documentos que comprovariam a titularidade desde aquela data.

Reinig disse que apenas assinava documentos preparados pelo departamento jurídico dos fundos.

O delegado José Eduardo Jorge afirma que a versão da titularidade histórica da Centaurus só surgiu no momento em que a reorganização societária poderia desencadear a obrigatoriedade da OPA.

Em março de 2025, o Josephina III comprou do fundo Josephina I uma fatia adicional de 15,79% das ações da Oncoclínicas, elevando sua participação direta na rede para 31,8%.

Na mesma operação, transferiu ao Goldman Sachs, por meio de um swap, o resultado econômico dessa fatia adicional. Neste tipo de contrato, o resultado financeiro do ativo passa para uma das partes, mas a propriedade do papel permanece com a outra.

Segundo o despacho, essa versão foi usada para convencer a Oncoclínicas, a CVM, a B3 e os acionistas de que uma oferta pública não era necessária, o que teria permitido a manutenção de uma participação acima do limite estatutário –prejudicando os acionistas minoritários.

O indiciamento acontece poucas semanas após a Superintendência de Registro de Valores Mobiliários da CVM ter decidido, em parecer técnico de junho, que a Centaurus não era obrigada a lançar a OPA.

A área técnica entendeu que a gestora já detinha, de forma indireta, participação na Oncoclínicas desde 2018, dentro da estrutura controlada pelo Goldman Sachs, e que a reorganização de 2024 e 2025 apenas redistribuiu uma posição existente entre as duas partes —ou seja, a mesma tese que hoje a Polícia Civil trata como elemento de fraude.

Em julho deste ano, a rede oncológica entrou com um pedido de recuperação extrajudicial para negociar R$ 5,1 bilhões em dívidas. A companhia chegou a acumular um prejuízo de R$ 3,67 bilhões apenas em 2025.

A Centaurus preferiu não se manifestar.

Fonte: Folha Online - 11/08/2026

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