Investigação de fraude no Digimais cria nuvem sobre império de Edir Macedo
Publicado em 09/07/2026 , por Folha Online
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Uma suposta fraude em um banco brasileiro está lançando dúvidas sobre a igreja evangélica mais poderosa do país, fundada e liderada por um bispo conservador bilionário.
O bispo Edir Macedo, um proeminente televangelista que fundou a Igreja Universal do Reino de Deus, é dono do Digimais, um banco relativamente pouco conhecido que enfrenta uma investigação por parte de autoridades brasileiras sob a alegação de que inflou o valor de seus ativos.
Os últimos desdobramentos podem tornar Macedo uma figura ainda mais divisiva no país. O pastor de 81 anos construiu um amplo império religioso, pregando para um público estimado de 10 milhões de fiéis, sendo que 7 milhões deles estavam no Brasil, de acordo com dados da igreja em 2021.
Ao mesmo tempo, Macedo tem uma série de outros negócios, incluindo o banco e a segunda maior rede de televisão do país, ambos controlados por ele dos Estados Unidos, onde mora.
Com sua influência, ele desempenha um papel importante na política do país, dando apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao longo dos anos 2000 antes de mudar o endosso para políticos conservadores, como o ex-presidente Jair Bolsonaro em 2018.
O Republicanos, um dos partidos de maior peso no Congresso, tem ligações com a igreja, incluindo um líder que é também pastor licenciado e que foi vice-presidente da rede de TV de Macedo.
A Universal disse em comunicado divulgado em seu site em junho que Macedo não faz parte da administração do Digimais.
"A condução das atividades é de responsabilidade exclusiva dos executivos e profissionais legalmente habilitados para responder perante os órgãos reguladores", afirmou a igreja.
Ainda assim, a investigação sobre o banco joga luz sobre os negócios de Macedo. Autoridades afirmam que o Digimais inflou ativos para esconder problemas no balanço, com a polícia executando mandados contra executivos e congelando cerca de R$ 670 milhões em bens e dinheiro.
A assessoria de imprensa do Digimais informou que o banco não comentaria.
As acusações repercutiram no setor bancário brasileiro devido à similaridade com outro escândalo financeiro que emergiu no ano passado, quando o Banco Master, muito maior que o Digimais, foi liquidado pelo Banco Central sob acusações de ter fraudado balanços ao longo dos anos.
A ascensão de Macedo —e a influência de outros líderes evangélicos— erodiu nos últimos anos a liderança da Igreja Católica no país mais populoso da América Latina. Cerca de 27% dos brasileiros hoje se identificam como evangélicos, contra apenas um dígito nos anos 1970, quando a Igreja Universal foi criada. O catolicismo saiu de mais de 90% da população para menos de 60% no mesmo período, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas).
Macedo, que vive nos EUA há anos, construiu uma enorme réplica do Templo de Salomão em São Paulo para servir como o principal local de culto da Universal. Ocasionalmente, ele faz pregações diretamente do templo, com milhões de fiéis assistindo online.
Em 2025, ele vendeu um apartamento de luxo por US$ 13 milhões na Porsche Design Tower, perto de Miami Beach, na Flórida. O edifício é famoso pela garagem-robô, que permite aos moradores elevarem seus carros até os apartamentos.
Entre os negócios que Macedo detém separadamente da igreja está o Grupo Record, dono da segunda maior rede de televisão do Brasil. A empresa, comprada por ele no final dos anos 1980, registrou R$ 4,3 bilhões em receita no ano passado, de acordo com balanço publicado na Junta Comercial de São Paulo.
Embora boa parte da programação da Record seja secular, a emissora exibe telenovelas produzidas pela Universal e programas com conteúdo preparado pela igreja centrados em temas como família e questões sociais. A rede produziu o filme "Nada a Perder", cinebiografia de Macedo lançada em 2018 que quebrou recordes de bilheteria em meio a acusações de que as vendas de ingressos foram infladas por entradas adquiridas pela igreja.
Nos anos 2000, Macedo passou a mirar um pequeno banco conhecido por financiar automóveis. Ele fechou a compra de 40% do banco em 2009, mas o BC só daria aval à operação quatro anos depois devido à necessidade de um decreto presidencial permitindo que um investidor residente no exterior, como Macedo, detivesse participação em bancos.
A ideia era usar o banco para atender aos mais de 15 mil funcionários e fornecedores que a Record possuía naquele momento. Macedo comprou o restante do banco em 2020 e mudou seu nome para Digimais. Além disso, indicou pessoas próximas à Igreja Universal para liderá-lo, como o bispo João Luiz Urbaneja, que foi presidente do banco por um período.
O banco entrou em dificuldades financeiras, demandando um aporte de capital no começo deste ano para atender a exigências regulatórias. Macedo também buscou vendê-lo, fechando um acordo preliminar para vender o Digimais ao BTG Pactual, embora o negócio ainda não tenha sido concluído e possa ser revisto.
O Digimais também passou por uma troca de comando no começo do ano, com o filho de Urbaneja, Thiago Rodrigues Urbaneja, sendo substituído no comando por Aldemir Bendine, ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras. Ele ocupou as posições durante governos anteriores do PT, o partido de Lula.
Fonte: Folha Online - 08/07/2026
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