Um debate mais sério sobre as propostas de campanha
Publicado em 28/07/2026 , por Folha Online
Em recente conversa com representantes do mercado financeiro, o coordenador de campanha do PT defendeu o controle de capitais como forma de reduzir a volatilidade cambial e contribuir para o combate à inflação, além da elevação do salário mínimo como instrumento para estimular a saída de beneficiários do Bolsa Família.
Independentemente do espaço que venham a ocupar no programa de governo, essas propostas revelam um raciocínio que merece atenção. As preocupações —controlar a inflação e promover a mobilidade social— são legítimas. O problema é que as propostas pouco dialogam com os fatores que estão na origem desses desafios.
A ideia de recorrer ao controle de capitais para reduzir a volatilidade cambial não é nova. Mas a experiência brasileira não indica que ela seja eficaz para esse fim. Estudos sobre as medidas adotadas nas décadas de 1980 e 1990 mostram efeitos, na melhor das hipóteses, temporários sobre o volume e a composição dos fluxos, sem impacto duradouro. A experiência de 2009 a 2013, marcada por sucessivas alterações no IOF e outras restrições à entrada de capitais, aponta na mesma direção: houve alguma segmentação entre os mercados doméstico e internacional, mas pouco efeito sobre o câmbio. As medidas adotadas até meados de 2011 não produziram mudanças significativas, e o efeito observado em 2013 coincidiu com uma alteração da política monetária.
O câmbio responde a fatores externos —como os termos de troca e as condições financeiras globais—, mas também reflete fundamentos domésticos, sobretudo a percepção de risco fiscal e institucional. O forte crescimento da dívida pública nos últimos anos e as incertezas quanto à trajetória das contas públicas, agravadas pela ausência de uma âncora fiscal crível, contribuem para a maior volatilidade cambial. Ainda que o FMI reconheça que medidas de gestão de fluxos de capitais possam ser úteis em circunstâncias específicas, a própria instituição ressalta que elas não substituem os ajustes macroeconômicos necessários—em especial os de natureza fiscal.
Já a proposta de elevar o salário mínimo para estimular a saída de beneficiários do Bolsa Família desconsidera que a mobilidade social depende, sobretudo, da ampliação das oportunidades de inserção produtiva. O alívio da pobreza não se traduz automaticamente em mobilidade se não vier acompanhado de melhorias no acesso a serviços públicos de qualidade, especialmente educação e saúde. Embora a escolaridade média da população tenha aumentado nas últimas décadas, diferentes indicadores mostram que a aprendizagem dos alunos continua insatisfatória, o que ajuda a explicar o fraco crescimento da produtividade do trabalho.
Além disso, o salário mínimo deixou há muito de ser apenas um parâmetro do mercado de trabalho. Benefícios assistenciais, como o BPC, e previdenciários, como aposentadorias, são indexados a ele. Assim, reajustes do mínimo podem produzir efeitos na direção oposta à pretendida. Embora aumentem a atratividade do emprego formal, também elevam o valor de benefícios vinculados ao mínimo, reduzindo o custo de oportunidade da informalidade para parte dos trabalhadores.
Há ainda um efeito adicional. A valorização do salário mínimo tem impacto relevante sobre as despesas públicas, ampliando as dúvidas quanto à sustentabilidade da dívida e alimentando a percepção de risco fiscal —um dos fatores por trás da própria volatilidade cambial que a primeira proposta pretende reduzir. Se o objetivo é controlar a inflação e promover a mobilidade social, será mais eficaz fortalecer a credibilidade da política fiscal e enfrentar os entraves que limitam a produtividade do trabalho e perpetuam a informalidade.
Fonte: Folha Online - 27/07/2026
Notícias relacionadas
- 28/07/2026 Volume de emissões de debêntures no primeiro semestre é o menor desde 2023, diz Anbima
- 28/07/2026 Um debate mais sério sobre as propostas de campanha
- 27/07/2026 Dona de Habib's e Ragazzo pede à Justiça proteção contra credores com dívidas de R$ 312,4 milhões
- 27/07/2026 Conta de lixo enfrenta resistência em municípios, e vereadores derrubam taxa
- 27/07/2026 Termos bancários: entenda os conceitos que fazem parte das suas finanças
- 27/07/2026 Cortes no orçamento do BC ameaçam segurança e inovação do Pix
- 24/07/2026 Ressarcimento de cortes de energia renovável deixa de fora quase metade dos casos, e setor vê riscos
- 24/07/2026 Brasileiros sofreram 258 golpes por hora em 2025; crime quintuplicou desde 2018
- 23/07/2026 TCU alerta governo para risco fiscal de manter universalização dos Correios sem compensação
- 23/07/2026 Governo divulga regras para ressarcimento retroativo por cortes de geração de energia renovável
Notícias
- 28/07/2026 Comissão do Senado cria mais de R$ 1 tri em custo extra na conta de luz em votação relâmpago
- Desenrola ajuda, mas não causa queda significativa no endividamento
- Hapvida lançará NotreDame como plano de saúde premium
- Deflação de alimentos acentua, e SP tem a maior queda de preços no ano
- Morador pode levar visitante para a piscina ou academia do condomínio?
Perguntas e Respostas
- Quanto tempo o nome fica cadastrado no SPC, SERASA e SCPC?
- A consulta ao SPC, SERASA ou SCPC é gratuita?
- Saiba quais os bens não podem ser penhorados para pagar dívidas
- Após quantos dias de atraso o credor pode inserir o nome do consumidor no SPC ou SERASA?
- Protesto de dívida prescrita é ilegal e dá direito a indenização por danos morais
- Como consultar SPC, SERASA ou SCPC?
- ACORDO - Em caso de acordo, após o pagamento da primeira parcela o credor é obrigado a tirar o nome do devedor dos cadastros de SPC e SERASA ou pode mantê-lo cadastrado até o pagamento da última parcela?
- CHEQUE – Não encontro à pessoa para qual passei um cheque que voltou por falta de fundos. O que posso fazer para pagar este cheque e regularizar minha situação?
- Problemas com dívidas? Dicas para você não entrar em desespero
- PROTESTO - Qual o prazo para o protesto de um cheque, nota promissória ou duplicata? O protesto renova o prazo de prescrição ou de inscrição no SPC e SERASA?
- Cartão de Crédito: Procedimentos em caso de perda, roubo ou clonagem
- O que o consumidor pode fazer quando seu nome continua incluído na SERASA ou no SPC após o pagamento de uma dívida ou depois de 5 anos?
- Posso ser preso por dívidas ?
- SPC e SERASA, como saber se seu nome está inscrito?
- Acordo – Paga a primeira parcela nome deve ser excluído dos cadastros negativos (SPC, SERASA, etc)
