Consumo fraco, crédito caro e endividamento pressionam varejistas
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Consumo fraco, crédito caro e endividamento pressionam varejistas

Publicado em 10/08/2026 , por Folha Online

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Uma sequência de números divulgados por varejistas na semana passada indicaram que a desaceleração do consumo e o aumento do endividamento das famílias castigam o setor mais do que o esperado.

O Magazine Luiza registrou prejuízo líquido ajustado de R$ 50,4 milhões no segundo trimestre de 2026, revertendo o lucro de R$ 1,8 milhão registrado um ano antes. A Renner afirmou que não conseguirá bater a meta de vendas que previa para 2026, enquanto a C&A veio com números considerados abaixo das expectativas dos analistas.

"O varejo talvez seja o setor mais penalizado pelo nível elevado dos juros, que permaneceram altos por muito tempo. As famílias continuam bastante endividadas e a concorrência no setor é intensa", afirma Marco Saravalle, estrategista-chefe da Krivo Capital.

Segundo Saravalle, algumas companhias têm enfrentado dificuldades para entregar lucro operacional, ou seja, gerar resultado suficiente para cobrir seus custos. "Tudo isso acaba contaminando a percepção sobre o setor como um todo e aumenta a preocupação com uma desaceleração da economia."

Além do custo elevado do crédito, o setor enfrenta o peso do alto endividamento das famílias, fator que limita o consumo e afeta principalmente a compra de bens de maior valor.

Segundo pesquisa divulgada na quinta-feira (6) pela CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), 82% das famílias brasileiras tinham algum tipo de dívida em julho, o maior patamar da série histórica. Em junho, o índice era de 81,6%.

A pesquisa também mostra que, em média, 29,5% do orçamento das famílias está comprometido com dívidas, enquanto o tempo médio de comprometimento é de 7,2 meses.

Em nota, a CNC ressalta que o endividamento não é necessariamente negativo porque o crédito também impulsiona o consumo. No entanto, alerta que o indicador passa a ser preocupante quando as famílias têm dificuldade para honrar os pagamentos.

Os dados foram divulgados um dia após o Copom reduzir a taxa Selic de 14,25% para 14% ao ano. O economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, afirma que, apesar de ser um passo importante para melhorar as condições de crédito, seus efeitos não são imediatos.

Em 2026, o varejo brasileiro tem se expandido, mas vem perdendo parte do fôlego ao longo do ano. Até maio, dado mais recente da Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o volume de vendas do setor acumulava alta de 1,7%.

O resultado, contudo, já foi mais forte. Até março, o crescimento acumulado era de 2,4%. No acumulado do ano, o desempenho do comércio de móveis pesa sobre o indicador, com queda de 3,7% nas vendas.

Em coletiva de apresentação de resultados, Roberto Belissimo, diretor financeiro do Magazine Luiza, disse ver o resultado líquido da empresa, que registrou prejuízo, "muito influenciado neste trimestre pela taxa de juros, muito alta, e pelo impacto nas nossas despesas financeiras". Segundo ele, os juros futuros, em alta pela guerra no Irã, também pressionaram a companhia.

O BTG concorda com a análise. A instituição financeira vê um desempenho do Magalu impactado pela competição intensa no comércio eletrônico brasileiro e pelos juros, "que continuam pressionando a demanda dos consumidores e as despesas financeiras por meio de custos maiores".

Durante o pregão desta sexta (7), os papéis da empresa recuaram mais de 3% no Ibovespa, principal índice do mercado acionário brasileiro.

A varejista de moda Renner reduziu a expectativa de crescimento da receita líquida para 2026 de uma faixa entre 9% e 13% para um intervalo de 4% a 8%. Pesaram sobre a decisão a redução do fluxo de clientes nas lojas físicas durante a Copa do Mundo, além do ambiente macroeconômico mais adverso.

No trimestre, a empresa registrou lucro líquido de R$ 405 milhões, valor estável em relação ao mesmo período de 2025. No pregão desta sexta, as ações da Renner chegaram a recuar 15,13%.

Em coletiva de apresentação de resultados, o CEO da empresa, Fábio Faccio, afirmou que a trajetória dos juros e o endividamento pressionaram a companhia a revisar suas expectativas para o ano.

"Algumas premissas utilizadas no ano passado mudaram em relação ao cenário que observamos hoje. A queda da taxa de juros está mais lenta e com menor impacto do que projetávamos. O endividamento das famílias também seguiu uma trajetória diferente da esperada: nossa projeção era de estabilidade ou queda, mas, na prática, houve aumento."

Ainda no segmento de moda, a C&A divulgou seu balanço na terça-feira (4). A rede registrou lucro líquido ajustado de R$ 130,1 milhões no segundo trimestre, alta de 4,3% em relação ao mesmo período do ano passado.

O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado somou R$ 435,9 milhões, queda de 0,6% na mesma base de comparação e abaixo da expectativa média de analistas consultados pela LSEG (London Stock Exchange Group), que projetavam R$ 441,4 milhões.

A empresa também apontou as taxas de juros elevadas e o alto comprometimento da renda das famílias como desafios para o consumo, mas disse que ainda conseguiu manter um crescimento consistente no trimestre.

A venda de vestuário totalizou R$ 1,9 bilhão, alta de 5,6% em relação ao segundo trimestre de 2025. Nesta sexta, a empresa recuou mais de 2% na Bolsa.

No varejo alimentar, as ações do Assaí também figuravam entre as maiores quedas do Ibovespa. Na quinta-feira (6), a empresa anunciou lucro líquido de R$ 484 milhões no segundo trimestre, alta de 121% em relação ao mesmo período do ano passado.

No balanço, a companhia afirmou que a inflação dos alimentos voltou a pressionar o trimestre e que o endividamento continuou afetando o consumo, levando de menor renda a ajustarem sua cesta para preservar o orçamento.

A taxa de juros tem sido apontada como um dos principais fatores de pressão sobre o setor. No início do ano, o mercado esperava que a Selic recuasse para a faixa de 12%. Agora, a expectativa é de apenas mais uma redução de 0,25 ponto percentual na taxa, levando-a para 13,75%.

O ambiente de juros elevados foi mencionado como um dos fatores que contribuíram para o pedido de recuperação judicial do Grupo Toky, dono da Mobly e da Tok & Stok, no início do ano. O Pão de Açúcar também está renegociando suas dívidas com credores financeiros.

"A taxa de juros elevada por um período prolongado parece estar impactando a atividade. Somada ao elevado endividamento das famílias, ela reduz a atratividade do setor de varejo brasileiro", afirma Felipe Cima, especialista em renda variável da Manchester Investimentos.

O movimento também afeta outros setores, como o bancário. As instituições financeiras têm observado piora nos indicadores de crédito e sinalizado maior cautela na concessão de empréstimos nos próximos meses.

Fonte: Folha Online - 10/08/2026

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