Viih Tube e o estranho reality dos direitos trabalhistas
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Viih Tube e o estranho reality dos direitos trabalhistas

Publicado em 10/08/2026 , por Folha Online

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Eu não conhecia Viih Tube até assistir, recentemente, a um vídeo em que ela e o marido, Eliezer Netto, falavam sobre direitos dos trabalhadores domésticos e trabalho em condições análogas à escravidão.

Fiquei impressionada com a consciência social do jovem casal. Fui atrás de entender quem era essa mulher tão empenhada na defesa da classe trabalhadora: atriz, apresentadora, influenciadora digital, youtuber, empresária, ex-BBB e escritora. Não identifiquei a atividade principal, mas descobri que o currículo é quase tão extenso quanto o número de funcionários da sua casa.

O casal foi o criador do reality show "As Patroas (e o patrão)", em que 11 de seus empregados domésticos disputavam dinheiro (R$ 20), prêmios, folgas, massagens e redução de jornada.

Logo na primeira prova, os participantes receberam a tarefa de procurar moedas espalhadas pela casa, inclusive dentro de uma lixeira e de um vaso sanitário. O programa recebeu críticas e levou à atuação do Ministério Público do Trabalho, que considerou a situação humilhante e vexatória. Um Termo de Ajuste de Conduta foi firmado, prevendo o encerramento do "As Patroas", a retirada dos conteúdos considerados humilhantes, a publicação de três vídeos educativos sobre direitos trabalhistas e o pagamento de R$ 350 mil por dano moral coletivo.

Foi então que entendi a origem daquele vídeo tão esclarecedor: era parte da contrapartida do acordo.

O reality reproduziu exatamente aquilo que dizia denunciar: para discutir a precarização do trabalho, colocou funcionários numa competição em troca de dinheiro e benefícios; para denunciar a exploração, usou do próprio poder patronal; para falar sobre humilhação, expôs publicamente os empregados; para defender a redução da jornada, transformou o descanso em prêmio. E converteu tudo isso em conteúdo, audiência, visibilidade e capital.

Viih Tube pediu desculpas e reconheceu que, mesmo roteirizado e consentido, o programa poderia normalizar situações inadequadas.

O casal garantiu que ninguém obrigou os funcionários a participar. Mas isso é insuficiente. O problema nunca foi o consentimento formal, é saber se o consentimento de um empregado, diante do próprio patrão, pode ser plenamente livre.

"Eles são como se fossem família". Um clássico. A fórmula mais eficiente de tornar a hierarquia mais funcional. O trabalhador é da família quando se espera lealdade e disponibilidade. É da família quando surge uma viagem, um sábado inesperado, uma criança doente, um passeio com o cachorro. Volta a ser empregado no instante em que a relação deixa de ser conveniente para quem emprega.

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Quando ganha do patrão uma passagem de ônibus para visitar a família, um pote com sobras do bolo, uma roupa usada em ótimo estado, um presente no Natal, espera-se que reconheça ali uma forma especial de generosidade.

Algumas funcionárias de Viih Tube e Eliezer os defenderam, dizendo que estavam "amando" a experiência. Acredito. É presunçoso imaginar que os trabalhadores não têm discernimento para fazer suas escolhas. Eles podem defender o patrão e continuarem submetidos a uma relação desigual.

Uma coisa é combinar uma brincadeira entre iguais; outra é quando um deles paga o salário e o outro depende dele. Essa diferença, ironicamente, foi o único conteúdo verdadeiramente pedagógico que "As Patroas" produziu.

Fonte: Folha Online - 09/08/2026

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