'Pensei que ia ter saldão': a reação dos consumidores à recuperação judicial da Casas Bahia
Publicado em 20/08/2026 , por Estadao
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Dois dias depois de a rede Casas Bahia pedir recuperação judicial , os poucos clientes que foram a uma das mais antigas lojas do grupo em São Paulo (a unidade da Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros, inaugurada em 1971), saíram decepcionados.
"Achei que ia ter um saldão, uma queima de estoque", disse a auxiliar de limpeza Jucélia Nepomuceno da Silva. Outro que achou que haveria um saldão, com ofertas atrativas, foi o empreiteiro Joel Luiz.
"Olhei os preços da calçada mesmo e já vi que não tem oferta de nada. Tudo caro. A loja está bem vazia, eles deviam fazer uma mega liquidação para gerar um caixa, né?", disse o consumidor. De acordo com um dos vendedores da loja, que preferiu não se identificar, boa parte dos consumidores que chega à unidade confunde o pedido de recuperação judicial com falência, por isso a expectativa por um "saldão".
Mas a recuperação judicial não é um pedido de falência. Nela, a empresa ganha um tempo para ficar sem pagar seus credores, e assim, evitar a quebra. Os débitos são renegociados em condições melhores para que a companhia possa se recuperar.
Jucélia, na verdade, foi até a loja nesta quarta-feira, 19, porque precisava pagar a segunda parcela, de R$ 233, do celular que comprou em cinco vezes, no carnê. Esse tipo de financiamento é a grande vantagem da Casas Bahia, segundo ela.
Funciona principalmente para quem está com dívidas e não pode usar cartão de crédito. "Já comprei muita coisa na Casas Bahia: TV, geladeira, nem lembro de tudo. Mas veja bem: se você não paga uma parcela ou atrasa alguns dias, eles já ligam para você toda hora, ameaçam por seu nome na lista de devedores", diz.
"Por isso acho um absurdo eles estarem devendo R$ 17 bilhões. O dinheiro entra. Não sei como deixaram chegar a esse ponto." Uma outra consumidora que entrou na unidade, que também preferiu não se identificar, foi atrás de alguma oferta de forno elétrico.
"Achei que, por estarem falindo, ia ter saldão", disse, decepcionada. "O mais barato custa R$ 500 e ainda está caro." Segundo ela, na internet, numa busca simples, há modelos a partir de R$ 319, com frete.
Esse hábito do consumidor de comparar preços na internet também ajuda a explicar o momento por que passa o varejo. "Faz uns seis anos que não entro nessa loja para comprar alguma coisa. Em nenhuma. Só compro pela internet.
Antigamente até cheguei a comprar. Comprei uma máquina de cortar cabelo. Mas agora não dá mais", diz o motoboy Bruno Gonçalves. As lojas físicas da rede, segundo ele, têm preços bem mais altos que o comércio online.
"Agora mesmo estou procurando uma geladeira e a diferença de preço é muita coisa, de R$ 600 a R$ 700 mais caro nas lojas físicas." Na loja de Pinheiros, os cartazes com ofertas procuram estabelecer uma vantagem em relação à internet, com dizeres como "Compre e leve na hora" ou "Portátil para levar já".
"Mas quem é que vai levar uma caixa com microondas ou um ventilador no colo, dentro do ônibus?", pergunta a vendedora Tamiris Almeida, que trabalha na região. "Na internet você pesquisa tudo mais fácil." Rede fecha lojas e redimensiona tamanho A Casas Bahia anunciou o pedido de recuperação judicial na segunda-feira, 17, com dívida total de R$ 17,3 bilhões.
Na petição à Justiça de São Paulo, encaminhada no domingo, 16, o grupo disse enfrentar "a pior crise financeira desde a sua fundação". Segundo a empresa, a situação decorre da alta dos juros, da inflação, da perda de poder de compra das famílias e do aumento da inadimplência, além dos investimentos realizados em tecnologia, logística e comércio eletrônico.
O grupo também informou ter fechado 298 lojas e demitido cerca de 3 mil empregados (embora esses cortes sejam alvo de questionamento judicial por parte do sindicato da categoria) . Em teleconferência na segunda-feira, o presidente da companhia, Renato Franklin, disse que esse redimensionamento retira quase 30% das lojas e dos custos da companhia.
As unidades fechadas, segundo ele, respondiam por cerca de 14% da receita. Apesar da redução, a Casas Bahia manterá uma infraestrutura capaz de sustentar uma retomada futura quando o ambiente econômico permitir, disse.
Franklin também afirmou que os 298 fechamentos foram realizados em uma única etapa e que, no cenário atualmente considerado, a empresa não prevê novos ajustes na rede. "Mas, se o cenário piorar um pouco mais, somos obrigados a voltar para a prancheta e redimensionar", disse.
Fonte: Estadão - 19/08/2026
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