Inadimplência alta no Brasil põe à prova crescimento acelerado do Nubank
< Voltar para notícias

Inadimplência alta no Brasil põe à prova crescimento acelerado do Nubank

Publicado em 15/09/2026 , por Folha Online

1762452983690ce5f74f015_1762452983_3x2_xl.jpg
Ouça esta matéria Leitura automática, direto no seu navegador.

Pronto para ler a matéria.

São Paulo Daniele, 30, acumula nãos de bancos há quase dez anos. Autônoma e de renda instável, ela pediu cartão de crédito três vezes para uma grande instituição, e em todas a resposta foi a mesma: "Não temos crédito para você no momento", diz ela.

Com o Nubank, a história foi diferente. Em 2018, com menos de três meses de conta aberta, a instituição financeira ofereceu um cartão de crédito com limite de R$ 300. Com seis meses de uso, o teto saltou para R$ 700; depois, para R$ 1.100. Hoje, é mais de R$ 5.000.

"O primeiro banco até hoje não me deu cartão, e o Nubank só aumenta meu limite. Estou quase pedindo para diminuir", diz Daniele.

Histórias como a dela foram o motor de crescimento do Nubank nos últimos 13 anos. A instituição financeira galgou posições em uma indústria concentrada por meio, principalmente, da estratégia de atrair de clientes que, até aquele ponto, não tinham acesso a crédito.

Segundo a pesquisa feita pelo NPS Prism by Bain & Company, a instituição teria bancarizado 31,5 milhões de pessoas no Brasil, número equivalente a quase 1 em cada 5 adultos do país. Atualmente, ainda de acordo com a NPS, 6 em cada 10 adultos são clientes do Nubank. Em Roraima, Amapá e no Distrito Federal, essa proporção supera 73%, quase 3 em cada 4 adultos.

Em 13 anos de existência, foi de startup a segunda maior instituição do país em número de clientes, atrás apenas da Caixa Econômica Federal. Em número de ativos totais, porém, a fintech marcou US$ 82,75 bilhões (R$ 428,4 bilhões) —muito aquém dos primeiros colocados deste ranking: Itaú, com R$ 3,1 trilhões, e Bradesco, com R$ 2,4 trilhões.

Agora esse modelo de negócio enfrenta um teste com o elevado nível de endividamento dos consumidores: a inadimplência de pessoas físicas fechou julho em 7,8%, alta de 1,1 ponto percentual em um ano, de acordo com o Banco Central. No Nubank, segundo os dados mais recentes disponíveis, os atrasos superiores a 90 dias alcançaram 6,9% das operações em junho, com elevação de 0,4 ponto percentual ante março.

Analistas temem que este cenário, combinado com juros mais altos por mais tempo, afete o ritmo de crescimento da instituição.

Acelerando a concessão de crédito sem garantia, o lucro do banco aumentou 62% em um ano, indo a US$ 1,9 bilhão (R$ 10 bilhões) no primeiro semestre de 2026.

O portfólio de crédito total do Nubank somou US$ 39,4 bilhões, um salto de 37% no ano. Cartões de crédito corresponderam a US$ 26 bilhões desse total; empréstimos sem garantia, US$ 10,3 bilhões; e crédito com garantia, US$ 3,1 bilhões.

Para analistas do Citi, embora os indicadores da qualidade do cartão de crédito do banco tenham permanecido estáveis, no crédito pessoal eles se deterioram.

"Como resultado, o principal debate deixou de ser sobre crescimento e passou a ser se o Nubank conseguirá manter seu ritmo atual de expansão e rentabilidade em um ambiente de crédito normalizado, especialmente considerando o elevado nível de endividamento das famílias brasileiras", diz o Citi, em relatório.

Os analistas também citam o comprometimento de renda dos brasileiros e a esperada desaceleração da economia no próximo ano como fatores que podem ampliar a inadimplência do banco.

Além disso, o Novo Desenrola Brasil, que beneficiou o Nubank com renegociações de crédito, acabou em agosto. Segundo a instituição, o programa do governo federal reduziu o custo de crédito do banco em 5%, economizando US$ 85 milhões.

Com alta penetração na baixa renda, a instituição financeira foi a maior participante do Desenrola, segundo dados do FGO (Fundo de Garantia de Operações), com cerca de 29% dos contratos renegociados a prazo.

Foram mais de 656 mil renegociações parceladas —é possível pagar a nova dívida à vista— no Nubank, que, após o desconto, somaram R$ 1,2 bilhão. Ou seja, são contratos que o banco não esperava receber, mas que agora, dada a garantia do governo, irão para o caixa do Nubank.

"Os recortes do programa caem justamente nos principais públicos do Nubank", afirma Thiago Batista, líder do departamento de análise e pesquisa de ações do UBS BB Investment Bank.

"O Nubank tem uma base de clientes de baixa e média renda, e os principais produtos cobertos pelo Desenrola são cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal sem garantia. Ele entra pelos dois lados, então podemos dizer que é o mais impactado pelo Desenrola", completa Batista.

Apesar do programa, a inadimplência e o comprometimento de renda das famílias seguem altos, o que pode comprometer o ritmo de crescimento do banco, que tem o Brasil como seu principal mercado.

"O segundo trimestre foi uma vitória clara, mas a 'guerra' ainda não acabou, e o Nubank terá que continuar se provando repetidamente", diz o BTG Pactual em relatório.

Segundo os analistas, o resultado do banco é uma prova de que ele é um dos poucos vencedores no setor bancário.

Para o Itaú BBA, o Nubank tem como acomodar uma inadimplência mais alta que os concorrentes. "O modelo do Nubank aceita rodar com inadimplência estruturalmente mais alta do que os bancos tradicionais porque ele tem um custo de operar muito mais baixo", diz Pedro Leduc, analista do Itaú BBA.

A fintech não tem tantos funcionários quanto os bancos tradicionais e não tem agências, por exemplo, o que reduz os gastos com operações.

Segundo Leduc, o Nubank opera com níveis mais altos de inadimplência que grandes bancos, e ainda sim com retornos elevados.

"Estimamos um valor presente líquido de um empréstimo pessoal típico do Nu de R$ 3.000, tendo seu 'break-even' em cerca de 28% de perdas com credito. Já um player de mais alto custo teria seu 'break-even' em 20% de perdas", diz o analista.

Ele aponta ainda que um desafio maior para o Nubank é crescer na média e alta renda, onde o custo de operar fica menos relevante.

Em volumes de empréstimos maiores, o custo de servir mais baixo do Nubank não faz tanta diferença na comparação com os bancos tradicionais. Leduc exemplifica que, enquanto o Nubank gasta R$ 20 por mês para dar um empréstimo, um banco tradicional gasta R$ 40. Em empréstimos menores, de até R$ 3.000, a diferença no custo tem um alto impacto no lucro. Em empréstimos de R$ 50 mil, essa diferença não tem tanto impacto.

O ROE (Retorno sobre o Patrimônio Líquido), principal métrica de lucratividade dos bancos, do Nubank ficou em 33% de na primeira metade deste ano, aumento de 5 pontos percentuais em relação a junho 2025. Ou seja, um terço do patrimônio do Nubank vira lucro. No Itaú, o mais lucrativo entre os grandes bancos atualmente, essa métrica ficou em 24,3%.

Até o fim de 2026, analistas esperam que a lucratividade do banco digital se reduza para 31,5% e, em 2027, para 30,8%, segundo levantamento da Bloomberg.

Outro fator que pode frear o ritmo de crescimento do Nubank é o investimento na expansão global e na aquisição e fidelização de clientes de alta renda.

Além do Ultravioleta, para clientes que gastam mais de R$ 8.000 no cartão ou tem mais de R$ 50 mil investidos, o banco aposta no recém-lançado Croma, a quem gasta a partir de R$ 4.000 no cartão de crédito ou tenha R$ 30 mil investidos.

Já no México, o banco projeta um investimento total de US$ 4,2 bilhões até 2030. Por lá, a empresa alcançou o equilíbrio entre despesas e receitas no primeiro trimestre deste ano. Nos Estados Unidos, o banco lançou operações neste mês com a ambição de alcançar entre 100 e 150 milhões de americanos.

Mesmo assim, David Vélez, CEO do Nubank, reiterou que o Brasil segue como prioridade. "Fazemos, por média, US$ 17 por cliente, e os cinco grandes bancos no Brasil estão em US$ 45, então ainda podemos duplicar ou triplicar o tamanho do Nubank só no Brasil", disse o executivo durante evento em Miami.

Fonte: Folha Online - 15/09/2026

20 pessoas já leram este conteúdo  

Notícias

Ver mais notícias

Perguntas e Respostas

Ver mais perguntas e respostas