'Negociar a dívida é uma chance de recomeçar': diretor da Febraban lista as principais estratégias
Publicado em 21/09/2026 , por R7
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Amaury Oliva analisa o cenário de endividamento do brasileiro e recomenda passo a passo para organizar as finanças
A inclusão de consumidores no sistema financeiro no pós-pandemia, o aumento da oferta de crédito, o custo de vida elevado, a pressão sobre a renda e a falta de educação financeira: esses são os desafios que impactam o endividamento das famílias, segundo Amaury Oliva, diretor de Cidadania Financeira da Febraban (Federação Brasileira de Bancos).
Em entrevista ao R7, Oliva destaca que o endividamento em si não é algo problemático, como um financiamento da casa própria, por exemplo.
O problema é o mau endividamento, como as linhas de rotativo do cartão de crédito, o cheque especial e o crédito direto ao consumidor, que têm juros mais altos.
A inadimplência chegou a 4,9% em julho, de acordo com o Banco Central, nível recorde desde o início da série histórica, em 2011.
Já a proporção de famílias endividadas alcançou 82%, também maior patamar desde 2025, segundo a CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo).
Segundo ele, os mutirões de dívidas, como o Desenrola Brasil, que renegociou R$ 28,3 bilhões entre 5 de maio e 31 de agosto, são oportunidades para as famílias colocarem as contas em dia e começarem a construir a cidadania financeira.
Veja a seguir os principais trechos da entrevista e o passo a passo para deixar de ser devedor e virar investidor.
R7 - O indicador que mede a proporção de famílias endividadas se manteve em 82% em agosto, maior patamar pelo sétimo mês seguido. Por que o número da inadimplência não diminui?
Amaury Oliva - A gente discute bastante aqui não só o endividamento e a inadimplência, mas também o comprometimento de renda. É sempre importante olhar para vários indicadores. Agora, tem alguns desafios no nosso país que são algumas causas da inadimplência e endividamento. Não tem uma causa única. O endividamento em si não é algo problemático. O problema é o mau endividamento.
Muitos de nós temos uma dívida. Eu, por exemplo, tenho uma dívida de financiamento imobiliário. Quando você tem uma dívida saudável, que constitui bem, patrimônio, uma casa própria ou um veículo, são linhas de crédito com prazos maiores, com taxa de juros menor. É um endividamento positivo.
R7 - Quais são as causas desse endividamento?
Amaury Oliva - Tem uma série de fatores que trazem esse desafio que o consumidor vive hoje. Nos últimos anos, a gente teve uma abertura do sistema financeiro. O que para o consumidor é bom, pois surge uma série de novas oportunidades.
A gente tem no Brasil, aproximadamente, 150 bancos. E, nos últimos 10 anos, surgiram mais de 1.500 financeiras, instituições de pagamento e fintechs. Teve uma inclusão bastante importante do consumidor no sistema financeiro.
Isso tomou um corpo no pós-pandemia, com a digitalização e a entrada desses novos players. Agora, você tem uma oferta maior de crédito para o consumidor, o que é importante na vida das pessoas e das famílias. Mas, naturalmente, você tem um desafio.
Também tem o custo de vida elevado e a pressão sobre a renda. Às vezes, as pessoas recorrem a crédito para contas do dia a dia. Claro que tem um fator cultural, mas também tem um fator de necessidade.
As pessoas às vezes recorrem a essas linhas, que são para crédito, e não para complemento de renda.
Também tem uma questão cultural do nosso país, que veio do período inflacionário dos anos 90. Isso traz marcas para todos nós e dificuldades de se planejar a médio e longo prazo.
Outro ponto que não dá para sair do radar: o aumento dos gastos com apostas, com jogos online. Isso trouxe um impacto indiscutível na renda das famílias.
R7 - Como enfrentar o desafio da falta de educação financeira?
Amaury Oliva - A gente discute sobre isso bastante aqui, e um dos temas é uma frente específica para trazer ferramentas que possam melhorar a forma como o consumidor lida com finanças.
Também tem uma relação direta entre a dificuldade de controlar gastos, o que se torna endividamento, depois vira inadimplência e, de repente, um superendividamento. Por isso, a educação financeira é também outro componente importante.
A gente fez uma pesquisa mostrando que 55% das pessoas entrevistadas disseram que não entendem nada de educação financeira.
Então tem um desafio aqui imenso. Isso exige uma atuação articulada entre mercado, poder público, grupos de defesa do consumidor. E a gente também tem trabalhado para construir essas várias frentes, essas redes e também ferramentas para gerenciamento.
A Febraban e os bancos têm uma história de iniciativas voltadas à educação financeira. Tem uma área que só cuida disso.
R7 - O que está sendo feito para combater o problema?
Amaury Oliva - A gente tem criado ferramentas para ajudar o consumidor. Por exemplo, em parceria com o Banco Central, a gente criou um indicador chamado Índice de Saúde Financeira do Brasileiro.
O consumidor responde a perguntas e tem um mapa de como está a sua saúde financeira. A ferramenta cria um autodiagnóstico. Então, ele tem uma série de conteúdos voltados ao perfil do usuário.
R7 - Quais foram os avanços?
Amaury Oliva - A gente tem avançado nessas ferramentas para o consumidor ter uma relação mais saudável com as finanças.
Atuamos numa outra frente para os bancos ofertarem crédito. Temos um modelo de autorregulação bancária desde 2008, que tem regras para crédito responsável e para a transparência.
A gente criou, por exemplo, uma regra de autorregulação do consumidor quando ele fica muito tempo no cheque especial, que é uma linha cara, para um momento emergencial e por um curto período de tempo.
Quando os consumidores ficam muito tempo e ocupam uma margem grande do cheque especial, o banco oferece uma linha mais barata.
Então, a gente criou um contrato: o cliente recebe um resumo de qual é o valor do empréstimo, quanto custa, qual é a taxa, mês e ano, quanto é a parcela, quanto tempo dura.
Criamos uma série de regras para os bancos, um modelo de autorregulação que é voluntário, mas que eles se comprometem a seguir padrões mais rígidos, além daqueles que a lei já determina.
Então, eu tenho aqui dois olhares: os bancos, com compromissos voluntários, e as ferramentas para o consumidor, para ele ter uma relação saudável com finanças.
E a gente tem uma terceira frente, que são nossos mutirões de renegociação de dívidas, em março e em novembro, com conteúdos para que o consumidor não entre de novo numa situação de inadimplência. A ideia é que o consumidor alcance o equilíbrio financeiro e não tenha mais que participar de mutirões.
E tem a participação dos bancos no programa do governo, o Novo Desenrola. Não só os bancos na repactuação, mas nós [Febraban] também, com esse conteúdo de educação financeira que a gente também tem disponibilizado.
R7 - Qual o tempo em média que a pessoa endividada pode levar para colocar as finanças em dia?
Amaury Oliva - É difícil ter um prazo, porque depende de uma série de circunstâncias. Das pessoas, do grau de endividamento, do volume de dívidas. Não tem um prazo único, depende de muitos fatores.
Agora, o que a gente tem feito é dar as ferramentas para o consumidor, porque, no momento em que ele repactua as dívidas e alcança o equilíbrio, tem que haver um engajamento para que não entre numa nova situação de inadimplência.
Isso envolve uma série também de questões comportamentais, de corte de gastos, de readequação do padrão familiar.
A gente tem trabalhado aqui para dar as ferramentas para o consumidor, não só no momento de uma situação crítica, de reflexão, de colocar tudo no papel, de buscar a instituição, de participar de programas como o Desenrola. Você tem uma oportunidade de reequilibrar finanças, mas também, no pós-repactuação, de construir hábitos saudáveis.
Depende muito da particularidade de cada pessoa, das famílias. Tem questões comportamentais, mas é possível. A gente tem muitos casos de sucesso.
R7 - E quais são as principais causas do descontrole financeiro?
Amaury Oliva - A primeira causa é comportamental, quando a gente compra por impulso. Isso é um fator que impacta o orçamento.
Outra causa é quando acontece algum imprevisto. E aí você tem que comprar algo ou um serviço para o qual não estava preparado, não tinha uma reserva de emergência. Isso ficou muito nítido quando a gente viveu na situação de pandemia.
E a terceira causa é quando acontece algo que tenha um impacto grande na nossa renda. Por exemplo, quando se perde o emprego ou se tem uma redução grande na renda.
R7 - Qual é o ponto de partida para arrumar essas contas?
Amaury Oliva - O primeiro ponto de partida é a gente colocar todas as nossas dívidas no papel. Fazer o orçamento pessoal: o quanto a gente deve, o quanto a gente gasta por mês, o quanto a gente ganha.
E, aqui, tem que dar um olhar crítico aos gastos, aquilo que de fato precisa ser feito e o que pode ser eliminado.
Depois, se tem dívidas, é preciso pensar qual é a melhor estratégia para pagá-las. Quais serão as primeiras que você vai pagar? São aquelas que tratam de serviços essenciais, como água e luz, sem os quais a gente não vive.
E, em seguida, aquelas dívidas com juros mais altos, como rotativo do cartão, já que tem outras linhas de crédito de médio e longo prazo com juros mais baixos. Então, tem sempre um crédito adequado para essas situações.
Depois de fazer esse mapeamento e de ter pensado de uma forma mais estratégica, aproveitar esses momentos de repactuação de dívidas, os mutirões ou mesmo procurar a instituição financeira. Os bancos estão sempre abertos a buscar uma forma de repactuação de dívidas.
A inadimplência não interessa a ninguém. Não interessa ao consumidor, não interessa ao banco e impacta diretamente o custo do crédito, que fica mais alto.
Tem aqui uma atuação conjunta para que o consumidor não se torne inadimplente e saia dessa situação.
E, depois, tem orientações para que a pessoa tenha uma vida financeira saudável. Tenha hábitos financeiros mais saudáveis, como passar a ser crítico com novos gastos, evitar acumular dívidas desnecessárias, entrar num movimento de ter uma reserva de emergência e buscar uma meta.
Por exemplo, uma meta de fazer uma viagem, de ter um carro novo, de buscar o primeiro imóvel, tudo isso tem que ter meta, planejamento. Dá para se antecipar e constituir aqui uma reserva, não de emergência, mas uma reserva para conquistar um bem que a gente tanto quer e sonha.
Passo a passo para acertar as dívidas
Veja as dicas do diretor da Febraban para colocar as contas em ordem e aprender a guardar dinheiro para realização de sonhos:
- Listar dívidas: esse é o ponto de partida para organizar o orçamento pessoal. Listar todas as dívidas, mapear se tem dívida no cheque especial, prestações, fatura do cartão de crédito, empréstimo consignado etc.
- Listar renda e gastos: em seguida, listar também os ganhos (renda, salário, comissão, aposentadoria, benefício), colocar o que tem de receita e, do outro lado, os gastos mensais, com aluguel, escola, conta de luz, farmácia, lazer etc. Isso ajuda a ter um olhar geral sobre os gastos.
- Analisar orçamento: com o orçamento pessoal em mãos, fica mais fácil cortar algum exagero, um gasto desnecessário.
- Trocar dívida cara por dívida bara
Fonte: R7 - 21/09/2026
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