Inadimplência é 40% maior em associados que jogaram em bets, mostra estudo do Sicredi
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Inadimplência é 40% maior em associados que jogaram em bets, mostra estudo do Sicredi

Publicado em 21/09/2026 , por Folha Online

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Brasília Os associados do sistema Sicredi que jogaram em bets durante o ano de 2025 estão com uma inadimplência 40% superior à registrada entre aqueles que não apostaram no mesmo período.

É o que mostra pesquisa realizada pela instituição financeira, que reúne mais de 90 cooperativas de crédito e 10,5 milhões de associados em todos os estados.

O levantamento considerou pessoas físicas com operações de crédito vigentes em julho de 2026 e verificou quantos desses associados haviam realizado apostas online entre janeiro e dezembro de 2025.

A pesquisa identificou também uma correlação entre o aumento da inadimplência e a frequência e o montante das apostas —cenário que indica que, quanto maior for a frequência e o valor da aposta, maior a inadimplência.

A amostra da pesquisa foi de 1,3 milhão de associados que apostaram no ano passado. "Foi uma surpresa [negativa]. Nossos achados aqui em relação a esse projeto são importantíssimos", diz o diretor-Presidente do banco cooperativo Sicredi, César Gioda Bochi, que antecipou os dados preliminares à reportagem.

Ele alerta que o resultado encontrado no Sicredi é o dobro do que foi verificado no estudo conjunto do Insper e da Stone, divulgado recentemente pela Folha, que mostrou que que a proporção de pessoas com pagamentos em atraso é, em média, 20% maior entre apostadores.

Na pesquisa do Sicredi, dentro do público que fez apostas online, foi identificada uma diferença também em relação à frequência das apostas e ao valor das apostas. "A [diferença na] inadimplência daqueles que apostam com menos frequência em relação aos que apostam com mais frequência também é 40% superior. É um achado dentro do outro achado", diz Bochi.

Para o executivo, esse segundo dado significa, na prática, que aqueles associados que apostam com mais frequência e recorrência, e com valores maiores, também têm uma inadimplência superior à dos que apostam de forma ocasional.

Os resultados preliminares do levantamento foram levados à diretoria do Banco Central, que tem se debruçado sobre a análise do impacto das bets no endividamento dos brasileiros para adoção de eventuais medidas corretivas.

O BC concentra agora a sua preocupação na correlação entre bets e a inadimplência no Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar), uma política pública do governo federal voltada a conceder crédito rural com juros reduzidos para pequenos produtores rurais.

Procurado, o BC não comentou o pedido de informações da reportagem.

Em evento do setor bancário, há cerca de 20 dias, o diretor de Fiscalização do BC, Aílton de Aquino, alertou que as bets são "elemento central" no endividamento das famílias, e que a autoridade monetária analisa o tema.

Segundo o diretor, qualquer visão de que as casas de apostas não contribuem para o endividamento é "fake news". Na ocasião, o diretor questionou a publicidade de bets em aplicativos financeiros, dando uma pista das medidas que podem ser adotadas.

O diretor-presidente do Sicredi afirma que o quadro de inadimplência maior entre os apostadores retira a capacidade de pagamento das dívidas e dificulta a recuperação econômica. "[O problema das bets] não é somente na pessoa física urbana, mas também no contexto do produtor rural."

"O que está disponível para pagar as parcelas de crédito fica menor e leva a uma maior inadimplência. Então é algo relevante no processo de recuperação econômica", diz Bochi.

A análise da pesquisa é preliminar e ainda está em fase de aprofundamento. Ela não contempla recortes sobre quantidade ou perfil dos apostadores, faixa de renda, localização, atividade econômica ou participação em linhas específicas de crédito.

Bochi destaca que, hoje, 50% da renda anual das famílias já está comprometida com dívidas e que, por isso, o cenário ficou ainda mais complexo com a aceleração do processo de degradação da capacidade de pagamento das pessoas.

Para que sejam adotadas medidas corretivas, ele sugere experiências internacionais, como restrições mais relevantes de publicidade e patrocínio.

"Temos que assegurar que essa expansão das apostas online, ela seja compatível efetivamente com a proteção do consumidor, em especial na questão de bem-estar financeiro, na questão de saúde pública inclusive", ressalta.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vem prometendo medidas contra os sites de apostas. Na sexta-feira (18), voltou a afirmar a apoiadores que, se depender da sua vontade pessoal, vai "acabar com as bets".

O setor argumenta que ações como a proibição da publicidade podem dificultar a competição com os sites clandestinos, que não empregam pessoas no Brasil, não arrecadam impostos nem adotam políticas de segurança para o jogador.

De acordo com o ministro da Fazenda, Dario Durigan, ainda não há nada definido.

O dirigente do Sicredi defende uma grande mobilização nacional, com a participação da imprensa, associações, governo, Banco Central e outras esferas públicas e da sociedade civil para produzir dados, estudos e ações evolutivas no caminho de proteger o consumidor.

Na sua avaliação, os esforços alocados para gerar conscientização e transparência têm sido feitos, mas não são suficientes. "Nós precisamos avançar em mecanismos que protejam, em especial aqueles mais vulneráveis."

O Sicredi conta com mais de 3,1 mil agências e está presente em mais de 2.000 municípios. Em mais de 200 cidades, é a única instituição financeira com presença física.

Em julho de 2026, o Sicredi administrava R$ 502 bilhões em ativos e possuía uma carteira total de crédito de R$ 297 bilhões, incluindo operações de CPR (Cédula de Produto Rural).

Fonte: Folha Online - 21/09/2026

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