O xadrez do endividamento
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O xadrez do endividamento

Publicado em 02/11/2026 , por Estadao

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Preocupado com os elevados índices de comprometimento de renda e inadimplência no Brasil, o Banco Central (BC) acaba de anunciar novas resoluções que visam a aumentar a transparência na oferta de crédito e reduzir o superendividamento no País.

Dados do próprio BC situam o nível de endividamento das famílias acima de 50%, um recorde indigesto. Já a taxa de inadimplência para as pessoas físicas no crédito com recursos livres atingiu 8,1% em setembro.

A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), por sua vez, apontou que 81,7% das famílias brasileiras tinham dívidas a vencer em setembro. O que já está ruim ainda pode piorar.

O próprio BC reconhece que a tendência para o endividamento é de elevação. E isso em um cenário em que a atividade econômica já dá sinais de esfriamento, o que só dificulta a capacidade dos brasileiros de honrarem suas contas.

Apesar de a gestão de Luiz Inácio Lula da Silva já ter editado três edições do programa de renegociação de dívidas Desenrola - duas delas somente neste ano -, o elevado nível de endividamento não dá trégua.

É nesse contexto que o BC determinou que, a partir de 31 de março de 2027, as instituições financeiras disponibilizem um mecanismo para que o consumidor possa bloquear o recebimento de propagandas e ofertas de crédito.

No caso de clientes em situação de vulnerabilidade financeira, as ofertas de crédito só poderão ocorrer se houver autorização prévia. Além disso, essas pessoas não poderão receber novas ofertas de concessão, mas apenas de operações como renegociação e portabilidade de dívidas.

Outra regra, que deverá vigorar a partir de julho, cria o Painel de Dívidas Consolidadas. As instituições financeiras terão de disponibilizar aos clientes uma ferramenta de visualização do quanto eles devem.

Tal ferramenta também deverá oferecer simulações dos custos e efeitos de operações de crédito. Por fim, também a partir de julho, a oferta de crédito no ambiente do Pix só poderá ocorrer mediante autorização prévia do cliente.

Ao contrário de uma operação Pix tradicional - a transferência instantânea de alguém para outra pessoa ou empresa -, o Pix crédito envolve a cobrança de juros, mas nem sempre o cliente está ciente disso.

As medidas são positivas em um cenário de forte aumento da bancarização no Brasil, sobretudo através de contas digitais. Por meio de um aparelho celular, milhares de pessoas hoje têm acesso a produtos financeiros anteriormente só acessíveis em agências físicas.

Isso é obviamente um avanço, mas é forçoso reconhecer que muita gente está sendo bombardeada no mundo virtual por ofertas que não conseguem compreender inteiramente. Reduzir o superendividamento, porém, vai muito além de ampliar a educação financeira da população e passa, necessariamente, pela questão dos juros altos, que acabam transformando um empréstimo em uma bola de neve.

Reeleito, Lula precisa ajudar o BC a baixar os juros, o que exige parar de incentivar a população a gastar sob a promessa de que, caso não possa pagar, o governo se encarregará da dívida.

Fonte: Estadão - 02/11/2026

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