Saiba quais dados podem 'vazar' para a rede Wi-Fi e se é possível se proteger dessa espionagem
Publicado em 04/06/2021
Pronto para ler a matéria.
Acredito que minha companheira espiona meu smartphone através da rede Wi-Fi. Gostaria de saber como me proteger disso. – D. C.*
Nesse cenário, a palavra "espionar" pode transmitir uma noção errada sobre os dados que correm algum risco de exposição na rede Wi-Fi. Vale a pena conhecer um pouco as diferenças entre os "tipos" de espionagem.
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Quando se fala da captura de informações realizada por programas espiões instalados no próprio dispositivo da vítima, praticamente todas as nossas informações ficariam expostas para esse invasor.
Embora o poder de espionagem desses programas seja alto, nem sempre é fácil utilizá-los. Em primeiro lugar, é preciso instalar o programa espião no dispositivo da vítima, o que exige acesso ao aparelho ou algum subterfúgio para convencê-la a baixar e instalar o programa.
Depois de instalado, é possível que o programa espião seja descoberto por algum antivírus ou mesmo por algum bug que desperte a desconfiança da vítima.
Mas há um porém: conectar ao mesmo Wi-Fi que uma pessoa mal-intencionada não permite que essa pessoa instale um aplicativo espião no seu smartphone.
Isso exigiria o uso de uma vulnerabilidade muito grave no celular – não é impossível, mas é bem complicado, principalmente se o sistema do seu celular estiver atualizado.Sendo assim, não se pode confundir a espionagem feita por um aplicativo e a espionagem "pelo Wi-Fi". São situações incomparáveis.
Portanto, se você desconfia que sua companheira está com acesso total aos seus arquivos e mensagens, isso não vai acontecer "por meio do Wi-Fi". Por regra, é necessário que ela tenha instalado um software no seu dispositivo.
Vamos entender o que fica exposto no Wi-Fi e a diferença entre um "ataque no Wi-Fi" e um "ataque por pessoas próximas".
O que é exposto no Wi-Fi?Quase todos os aplicativos e serviços hoje utilizam a criptografia para tornar os dados ilegíveis em trânsito. Ou seja, os dados são embaralhados antes da transmissão.
Mesmo que alguém consiga capturar todas as informações baixadas e enviadas pelo seu dispositivo, aqueles dados não podem ser lidos sem a chave de criptografia que apenas o seu aparelho possui.
Muitos "serviços de VPN" veiculam anúncios e até contratam influenciadores digitais para insinuar que a conexão de internet deixa dados expostos a terceiros. Isso, na maioria dos casos, não é verdade, pois a criptografia já atuou antes da transmissão dos dados.Por outro lado, assim como a criptografia da conexão, essas VPNs não têm qualquer efeito para impedir a captura de dados realizada por programas espiões que atuam diretamente no aparelho e não na rede.
No fim, os dados que ficam mais expostos no Wi-Fi são aqueles transmitidos sem criptografia. Isso pode incluir o seguinte:
- Domínio dos sites visitados (por exemplo, "facebook.com", "g1.globo.com", "web.whatsapp.com") ficam expostos, mas o link completo das páginas abertas e seu conteúdo é criptografado e não pode ser capturado pela rede.
- Endereços de IP visitados. Se os dados de tráfego forem analisados, pode ser possível identificar quais aplicativos foram usados (inclusive os que não utilizam dados web, como games) e obter uma estimativa do tempo em cada um desses apps. Isso significa, por exemplo, que é possível saber se alguém está usando um aplicativo de relacionamento e por quanto tempo, aproximadamente, o app foi usado, mas não é possível identificar a atividade (uma conversa ou uma curtida, por exemplo).
- Dados completos de navegação para sites sem criptografia. Esses são os sites que o navegador Chrome marca como "não seguros" na barra de endereços. Embora sejam poucos, é importante ficar atento – se não houver criptografia, todos os dados podem ser roubados.
Esses dados já consideram a possibilidade de que uma pessoa mal-intencionada pode tentar "envenenar" a rede com um ataque ao roteador.
Mais grave que o envenenamento para a espionagem é o redirecionamento de acesso.
A possibilidade de redirecionar o acesso a um site também pode viabilizar o "downgrade" ("rebaixamento") de criptografia.
Significa o seguinte: o seu acesso que normalmente iria para um site seguro e criptografado passa a ser intermediado por um sistema sem criptografia ou com uma criptografia controlada pelo invasor ou espião, o que permite a captura de dados.
No smartphone, esse ataque é muito difícil, pois os próprios aplicativos normalmente incluem uma proteção própria para evitar que isso ocorra.
Como se prevenir?Se você está utilizando uma rede Wi-Fi insegura ou pública, pode ser interessante, sim, utilizar uma VPN de confiança. Mas isso nem sempre é necessário.
Muitos aplicativos de celular detectam esse tipo de ataque. A conexão não é estabelecida quando o acesso foi redirecionado. Portanto, se você acessa redes sociais ou usa redes públicas principalmente no smartphone, o seu benefício com uma VPN pode não ser tão significativo.
Quando você usa um navegador e não o aplicativo, você precisa ter um pouco mais de cuidado. É preciso olhar com atenção a barra de endereço do navegador e verificar que está no site (endereço) correto, como "g1.globo.com", e que o cadeado está aparecendo na barra de endereços.
Em especial, desconfie se um site em que você já estava logado de repente começa a pedir sua senha ou solicitar o download de algum arquivo.
Muitos ataques de redirecionamento são apenas um degrau para a tentativa de instalar programas de espionagem, assim facilitando a vida do espião.
Ainda que você deixe alguns poucos dados menos expostos, o mais importante – suas conversas particulares e o conteúdo das páginas que você visita – estarão protegidos com ou sem VPN, desde que você tome estes cuidados.
Navegador web alerta quando redirecionamentos podem transmitir dados por conexões inseguras. — Foto: Reprodução
Espionagem de pessoas próximas é outro ataqueEm situações como esta do leitor, em que a dúvida não é causada por uma rede Wi-Fi qualquer, mas sim o Wi-Fi, é improvável que adotar medidas de segurança para o Wi-Fi resolva o problema.
Não se deve abordar a segurança e a privacidade de forma isolada. Se o "atacante" é uma pessoa próxima, a rede Wi-Fi é apenas um dos vários meios disponíveis para alcançar esse objetivo.
Os cuidados no uso do Wi-Fi são permanentes, em especial quando usamos redes públicas, como em cafeterias e aeroportos. A rede doméstica deveria ser mais confiável, e não menos. Isso é um sinal de que o problema não é o Wi-Fi.
Pessoas que decidem espionar amigos, membros da família e seus parceiros precisam ser impedidas por meio do diálogo ou até por uma denúncia à polícia. Qualquer tentativa de reforçar sua segurança pode ter o efeito oposto, aumentando a desconfiança e provocando atos ainda mais invasivos.
Nossos dispositivos não são elaborados pensando na necessidade de nos proteger contra alguém que está próximo de nós o tempo todo. Ao contrário, os dispositivos tentam minimizar os bloqueios e restrições de segurança quando você está em um ambiente seguro.
Embora seja válido adotar todas as medidas de segurança para cada situação (inclusive as do Wi-Fi, nesse caso), é bom entender que a essência da questão nesse caso pode não estar apenas na proteção da rede.
Fonte: G1 - 03/06/2021
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