Bancos centrais sabem que controle da inflação ficou mais desafiador
Publicado em 19/03/2026 , por Folha Online
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Nos EUA, o Fed adotou um discurso bem cauteloso ao manter os juros. No Brasil, o Copom cortou 0,25 ponto percentual, um ritmo moderado, dado que a Selic estava em 15%. Ambos os comunicados deixaram claro que o ambiente global segue marcado por incerteza e por riscos associados a novos choques de custos. Tudo indica que a convergência da inflação às metas exigirá mais cautela do que imaginado no início do ano.
Essa postura não surge por acaso. Ela reflete as lições da experiência inflacionária recente. A pandemia e a Guerra na Ucrânia recolocaram no centro do debate uma questão sempre em evolução: como os bancos centrais devem atuar em um ambiente marcado por choques de oferta?
Durante grande parte das últimas décadas, a política monetária foi conduzida em um ambiente relativamente benigno. A inflação era baixa, as expectativas eram bem ancoradas e a integração global ajudava a conter custos. Nesse contexto, tornou-se comum que os bancos centrais reagissem gradualmente a choques de oferta, partindo do pressuposto de que muitos deles seriam transitórios.
Essa estratégia se apoiava em três premissas. A primeira era que choques de oferta afetam sobretudo o nível de preços, sem necessariamente alterar a dinâmica inflacionária. A segunda, que esses choques tendem a reduzir o produto, de modo que uma reação excessivamente agressiva poderia aprofundar a desaceleração da atividade. E a terceira que, com expectativas bem ancoradas, aumentos pontuais de custos seriam interpretados como ajustes relativos, sem impactar todos os preços.
A experiência do pós-pandemia mostrou, porém, que essas premissas se tornaram mais difíceis de sustentar: as economias passaram a enfrentar choques mais frequentes e de natureza distinta, envolvendo simultaneamente oferta e demanda.
O comportamento da inflação daqui para a frente dependerá, em parte, de quão persistente será o choque atual, que ultrapassa o setor de energia e afeta também os preços de alimentos. Mas, ao mesmo tempo, o legado da experiência inflacionária de 2021 e 2022 também será determinante.
Naquele momento, as cadeias produtivas estavam desorganizadas, enquanto políticas fiscais e monetárias expansionistas mantinham a demanda aquecida. A inflação surgiu inicialmente concentrada em bens duráveis e energia. Com o tempo, as pressões se difundiram gradualmente, mesmo com as expectativas de inflação de longo prazo permanecendo relativamente bem ancoradas. Ou seja, o surto inflacionário não começou como um processo clássico de desancoragem, mas como resultado de pressões reais de custos e de demanda.
O diagnóstico inicial, compartilhado por várias autoridades monetárias, foi que a inflação seria temporária, pois era derivada de um choque predominantemente de oferta. Ao desconsiderar que a demanda também estava sendo estimulada, a reação de política monetária foi atrasada e gradual, a inflação subiu fortemente e o choque de juros teve que ser substancial.
O risco hoje não está no impacto inicial dos choques, mas na sua capacidade de ganhar tração e de se propagar pela economia, em um ambiente de políticas fiscais ainda estimulativas e bancos centrais com credibilidade mais abalada, após mais de cinco anos de inflação acima das metas.
Para complicar ainda mais o cenário, o ambiente econômico global está se tornando estruturalmente mais propenso a choques de oferta, diante de riscos geopolíticos mais frequentes.
Fora isso, a economia mundial atravessa um ciclo de investimentos ligados à inteligência artificial, à transição energética e à segurança nacional. Esse movimento impulsiona a demanda por semicondutores, infraestrutura digital, energia e minerais críticos, intensificando a competição por recursos estratégicos.
Nesse contexto, o comportamento das expectativas de inflação torna-se ainda mais central para a condução da política monetária. Até o momento, as expectativas de longo prazo permanecem próximas das metas nas principais economias. Isso não significa, contudo, que a âncora esteja tão sólida quanto antes da pandemia. Desde então, elas passaram a reagir mais intensamente a surpresas inflacionárias de curto prazo do que no período anterior a 2021.
Em um mundo marcado por tantas transformações, o desafio central da política monetária permanece o mesmo de sempre: impedir que choques de oferta se transformem em inflação persistente. Bancos centrais não conseguem evitar aumentos pontuais de preços. É por isso que, mais do que nunca, sua credibilidade continua sendo a principal linha de defesa para impedir que esses choques contaminem expectativas e se disseminem pela economia.
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Fonte: Folha Online - 18/03/2026
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