Agências de risco veem inflação e juros corroendo orçamento das famílias
Publicado em 22/04/2026 , por CNN Brasil
Instituições veem medidas do governo como paliativas; cenário pode ferir avaliação de crédito do país a longo prazo se endividamento continuar a aumentar sem controle, segundo Moody's
O endividamento crescente no país reflete o impacto negativo da inflação e das taxas de juros elevadas sobre as famílias, segundo agências de classificação de risco ouvidas pelo CNN Money.
"Ambas corroeram a capacidade de pagamento das famílias, particularmente daquelas que dependem de empréstimos sem garantia ou com taxas flutuantes, apesar de um mercado de trabalho forte", pontua William Foster, vice-presidente sênior do grupo soberano da Moody's Ratings.
As agências de classificação risco - ou de rating no jargão do mercado financeiro - funcionam como medidoras do cenário de empresas e países e são usadas pelos investidores para saber quais as melhores decisões sobre onde colocar o dinheiro e fazer render.
As casas ouvidas pela reportagem não veem, no momento, o cenário do endividamento das famílias como uma ameaça significativa para a economia ou à estabilidade financeira.
Contudo, esses fatores podem ferir o cenário geral de crédito do país a longo prazo se o endividamento das famílias e os empréstimos não produtivos continuarem a aumentar sem controle, pressionando significativamente o crescimento econômico e o sistema bancário e, consequentemente, aumentando os riscos à estabilidade financeira, segundo Foster.
Ainda assim, a Moody's aposta em cortes progressivos na taxa de juros do BC (Banco Central).
O problema no país passa, sobretudo, por juros elevados. Até a metade final de março, a taxa básica Selic estava no maior patamar em duas décadas. Mesmo com o corte de 0,25 ponto percentual, a política monetária do BC segue restritiva, com os juros do país em 14,75% ao ano.
Mesmo com as taxas elevadas, o brasileiro seguiu tomando empréstimos, como mostram dados do BC, que indicam recorde de saques por pessoas físicas no mês de dezembro de 2025. Enquanto isso, o número de famílias com renda comprometida para pagar dívidas bateu o maior nível da série histórica em janeiro.
"Particularmente em um ambiente de juros elevados a desalavancagem das famílias, ou seja, a capacidade de pagar efetivamente as dívidas fica muito comprometida. As taxas de juros elevadas no Brasil não são novidade, mas para a pessoa física o indicador é muito mais alto e quanto maior a inadimplência, mais essas taxas sobem para compensar o risco", enfatiza Renato Donatti, diretor sênior da Fitch Ratings.
Nesse sentido, o cenário poderia ser apontado como meramente conjuntural. No entanto, de modo geral, as taxas de juros no Brasil são estruturalmente mais altas do que na maioria das economias do mundo, independentemente do ciclo econômico, devido a características do SFN (Sistema Financeiro Nacional) que limitam a plena transmissão ou repasse das decisões de política monetária, de acordo com William Foster.
"Tais características incluem uma alta participação de dívida com taxa flutuante, dívida indexada à inflação e mercados de crédito segmentados, sujeitos a taxas de juros diferentes das taxas de mercado. Como resultado, grandes mudanças na taxa básica de juros são frequentemente necessárias para afetar materialmente os custos de empréstimo", pondera o vice-presidente sênior da Moody's.
Outras questão estrutural agrava ainda mais o cenário, relembra Rodolpho Sartori, economista da Austin Rating.
"O brasileiro em geral tem dificuldade com finanças. Para as pessoas no dia a dia comum não é tão simples quanto parece, e o governo tem parte nisso. Com a economia crescendo, as pessoas vão se endividar", provoca Sartori.
O economista destaca que, ao promover linhas de crédito facilitadas, como o consignado CLT, cria-se um "ambiente mais propenso" ao risco. Contudo, devido à falta de educação financeira, o brasileiro tende a entrar numa bola de neve de dívidas.
"O letramento é essencial: de como funciona um cartão de crédito, o quão caros podem ser os juros. Não há uma regulação muito clara sobre isso. Existe possibilidade de teto? Não é muito claro. Esse é um ponto essencial a ser olhado pelo governo", pontua o especialista da Austin.
"Nada disso é ruim por si só, mas a facilidade na tomada de crédito acaba deixando o ambiente mais propenso. Se há uma regulação menos intensa - que o governo quer para deixar atividade mais aquecida -, há risco. E houve uma falha de desenho do novo crédito consignado. Não deveria só permitir a troca do crédito, mas talvez uma restrição mais dura", avalia Sartori.
Segundo Sartori, o que a Austin mais acompanha sobre esse cenário é como ele pode estar afetando a popularidade do governo.
E para conter o endividamento, o governo está apostando todas as fichas na carta da liberação do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para pagamento de dívidas em uma nova versão do programa Desenrola.
Porém, a medida é vista como um paliativo.
"Elas podem proporcionar algum alívio temporário. No entanto, a principal causa e solução será o nível das taxas de juros. Uma queda significativa nas taxas de juros proporcionaria o maior alívio a longo prazo para famílias e empresas", afirma Foster.
Sartori reforça a avaliação explicando que a medida apresentada é de caráter conjuntural, de modo que o quadro estrutural não muda.
"Programas educacionais via Tesouro tem que entrar na pauta. E temos que mirar melhor onde atacar: teto para spread, dificultar acesso ao crédito, etc.", elenca o economista da Austin.
Pelo teor urgente que o Executivo dá à pauta, Sartori indica que há um interesse eleitoral no combate pontual ao endividamento, uma vez que o governo estaria percebendo falta de popularidade por esse lado.
Mas antes de os juros caírem, como sinaliza Foster, o economista da Austin destaca uma das lições de casa que ainda precisam ser cumpridas pela gestão Lula: "fiscal continua sendo um 'calcanhar [de Aquiles]' não resolvido".
Fonte: CNN Brasil - 22/04/2026
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