Como chegar ao fim do mês no azul? Veja dicas de planejadores financeiros
Publicado em 16/06/2026 , por Folha Online
O brasileiro não sabe para onde vai o próprio dinheiro. E o problema, segundo especialistas, não está nas contas grandes —aluguel, condomínio, água, luz–, mas no cartão de crédito e nos gastos miúdos do cotidiano: o aplicativo de transporte, a assinatura de streaming que ninguém mais usa ou um parcelamento feito há meses.
A planejadora financeira Myrian Lund trabalha com pessoas que chegam ao fim do mês sem conseguir fechar as contas e, na maioria dos casos, nem sequer sabem o motivo. Para sair da situação, o primeiro passo é mapear os gastos a partir dos extratos bancários.
O controle pode ser feito à mão ou em uma planilha, além de já existirem aplicativos que ajudam a monitorar para onde o dinheiro está indo. As ferramentas de inteligência artificial também são boas aliadas na tarefa de organizar os itens.
Apenas acompanhar as saídas nos aplicativos dos bancos não permite ver quanto está entrando e quanto está de fato saindo do orçamento. O mapeamento dos desembolsos começa por anotar aqueles que são obrigatórios e não podem deixar de ser pagos, caso das contas básicas e impostos.
Em seguida, começa a organização do que foi saindo para os pagamentos do dia a dia, como alimentação fora de casa, transporte e lazer. "O dinheiro vai embora nos pequenos itens", diz Myrian.
O ponto de maior atenção na hora de anotar os gastos é o cartão de crédito, que pode se transformar num vilão das finanças pessoais. O problema, destaca Myrian, é a forma como os parcelamentos das compras são feitos.
"Quem não anota os parcelamentos não vê o tamanho do gasto e começa o mês devendo muito", afirma. "Cada parcelamento também deve ser anotado como despesa do mês."
Quando há múltiplas dívidas, o planejador financeiro Cristiano Corrêa recomenda anotar como prioridade aquela com maior taxa de juros. Uma mensalidade escolar, por exemplo, costuma entrar nos gastos fixos mensais, mas está limitada por lei a 2% de multa, cobrada uma única vez, mais 1% de juros ao mês, calculados proporcionalmente aos dias de atraso.
O rotativo do cartão de crédito, por outro lado, chegou a 432,1% ao ano em abril de 2026, segundo o Banco Central. Desde janeiro de 2024, está em vigor a norma que estabelece que a dívida de quem atrasa o pagamento da fatura do cartão de crédito não pode superar o dobro do montante original. Isso significa que a taxa de juros é limitada a um teto de 100% do valor da dívida contraída. Mesmo assim, o custo segue sendo um dos mais altos do sistema financeiro.
"A pessoa precisa fugir do pagamento mínimo do cartão", diz Corrêa. "A prioridade é acertar o total para evitar o juro mais alto e, então, renegociar as dívidas em aberto."
Muitas famílias optam por pegar empréstimo consignado para quitar saldos devedores, sobretudo no cartão de crédito. O caminho, dizem os planejadores, faz sentido, mas também é preciso ter na ponta do lápis o quanto isso reduz a renda do mês logo na largada. Contrair uma nova dívida para acertar outra de maior valor sem diminuir o padrão de gastos pode não solucionar o problema.
"Estamos cercados de armadilhas de consumo", afirma Myrian. "É preciso pensar: isso é um desejo ou uma necessidade? Preciso disso para hoje e está no meu planejamento? Se a resposta é ‘não’, é preciso resistir à tentação."
Outra decisão importante, segundo a planejadora, é ter apenas um cartão de crédito. Além disso, é desejável estabelecer metas de gastos no cartão para controlar as novas dívidas, o que pode ser feito reduzindo-se o limite ao mínimo necessário.
Em situações de superendividamento no cartão, algumas instituições oferecem descontos grandes para o acerto, de até 90%, depois de já reconhecerem a dívida como perda contábil. Nesses casos, Corrêa recomenda realizar o pagamento junto ao banco.
Mesmo assim, o planejador lembra que a operação fica registrada no SCR (Sistema de Informações de Crédito) do Banco Central por até cinco anos. Ao contrário da Serasa e do SPC, onde a quitação da dívida remove imediatamente a negativação, no SCR o histórico de inadimplência, mesmo quitado, permanece visível aos bancos, o que pode influenciar a análise de crédito do cliente.
Com essas estratégias, uma família já consegue fazer com que as contas comecem a fechar no zero a zero ou no azul, pouco a pouco, nos meses seguintes. Essa é a hora em que deve entrar um importante hábito: guardar imediatamente uma parcela quando o salário cai, e não o que sobra no fim do mês.
"O valor a ser guardado deve ser tratado como uma despesa", afirma Myrian. Ela recomenda estabelecer uma meta no mês e, assim que o salário cair, investir o dinheiro em um CDB de grande banco ou em títulos do Tesouro atrelados à Selic, que são aplicações conservadoras.
Na divisão de gastos mensais, Corrêa propõe, como referência para uma família, 40% para contas fixas, 30% para investimentos e 30% para gastos eventuais. Mas ele pondera que o percentual importa menos do que bons hábitos, construídos mês a mês, conforme as dívidas vão sendo quitadas.
"Pode ser 1% de investimento. O maior ponto é a conscientização de gastar menos do que se ganha", diz ele. Myrian adota régua semelhante: gastar no máximo 80% da renda. "Ao colocar no papel cada gasto e diminuir o consumo do que não é necessário, é possível conseguir uma economia de 30% logo no começo", afirma, com base na experiência com seus clientes.
Fonte: Folha Online - 15/06/2026
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