Ressaca de endividamento e juro de equilíbrio no Brasil
Publicado em 19/06/2026 , por Folha Online
A economista Cecília Machado, que também é colunista da Folha, escreveu um artigo nesta semana alertando para os impactos negativos que um forte aumento do endividamento das famílias pode ter sobre o crescimento econômico brasileiro no futuro próximo.
Um outro estudo nessa mesma linha que vale a pena ser citado é "Understanding the Macro-Financial Effects of Household Debt: A Global Perspective", preparado por economistas do FMI (Fundo Monetário Internacional).
Esses estudos apontam que elevações do endividamento das famílias geram mais crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) no curto prazo, mas cobram um preço, em termos de menor crescimento, no médio prazo (3 a 5 anos depois, aproximadamente). É um fenômeno que muitas vezes é denominado, em inglês, como "debt overhang" —em tradução livre para o português, "ressaca de endividamento".
Essa ressaca tende a ser maior quanto maior for o aumento da alavancagem das famílias no período de acumulação de dívidas —"quanto mais alto, maior a queda"— e quanto maior for a contribuição do crédito imobiliário nesse aumento do endividamento (já que os prazos de amortização nesse tipo de empréstimo são bem longos, muitas vezes ultrapassando 10 anos).
Elevações muito expressivas do crédito para as famílias também aumentam a probabilidade de crises bancárias no futuro, incluindo aquelas que não são tão severas —surtos de aumento da inadimplência de algumas "safras" de crédito—, mas que tendem a impactar negativamente a oferta de crédito pelos bancos.
No contexto atual brasileiro, sabemos que os níveis de endividamento atingiram patamares recordes recentemente, como explorei em detalhes em uma coluna anterior, sobre o Desenrola 2.0.
Vale lembrar que boa parte do aumento do endividamento das famílias nos últimos anos não aconteceu agora e sim em 2021/22, quando a Selic estava extremamente baixa (ficou em 2% a.a. por muitos meses) e o crédito, sobretudo imobiliário, estava muito "barato" para os padrões históricos brasileiros (era possível financiar um imóvel com taxas nominais de cerca de 6% a 7% a.a.).
De acordo com os estudos citados no começo deste artigo, a ressaca costuma vir 3 a 5 anos depois do forte aumento do endividamento. Ou seja: estamos exatamente nessa janela.
Minha impressão é que essa ressaca irá se manifestar com força em 2027, passadas as eleições —já que, tanto no Brasil como em boa parte dos países democráticos, anos de pleitos gerais estão associados a impulsos fiscais e parafiscais eleitoreiros, buscando aumentar a probabilidade de reeleição do incumbente ou de manutenção de seu grupo político no poder.
Uma consequência disso, que parece não estar devidamente incorporada nos cenários de boa parte dos analistas, é que "debt overhangs" geralmente reduzem a taxa de juros de equilíbrio (ou neutra) da economia por um período razoável, por conta justamente da redução da demanda e mesmo da oferta de crédito às famílias associada a esse fenômeno.
Atualmente, o Banco Central estima que essa taxa neutra estaria em cerca de 5% a 5,5%, em termos reais —o que corresponderia a uma Selic entre 9,3% e 9,8% ao ano, levando em conta as expectativas de consenso para o IPCA nos próximos 12 meses. Há analistas que estimam uma taxa neutra ainda mais elevada, de 6% ou mais em termos reais (Selic superior a 10% a.a.). Esses números parecem não levar em conta a probabilidade bastante elevada de ocorrência do fenômeno descrito ao longo deste artigo.
Fonte: Folha Online - 18/06/2026
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