Comunicação considerada confusa do BC cria ruído e pode afetar economia real, dizem analistas
Publicado em 19/06/2026 , por Folha Online
A justificativa do Copom (Comitê de Política Monetária) para cortar a taxa Selic na quarta-feira (17) não caiu bem entre agentes do mercado.
O dólar disparou 1,26% nesta quinta-feira (18) e fechou cotado a R$ 5,174 um dia após as decisões do Banco Central e do Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA). Os juros futuros também dispararam, com os vencimentos de médio e longo prazo subindo mais de 0,2 ponto em alguns pontos da curva.
Para especialistas ouvidos pela Folha, a comunicação foi confusa e não esclareceu satisfatoriamente a decisão de continuar afrouxando a taxa básica de juros do país em um momento em que os índices inflacionários seguem subindo para além do teto da meta estabelecida pelo BC.
Isso, segundo eles, afeta a percepção do mercado sobre a chamada "função de reação" da autoridade monetária, isto é, a capacidade de um banco central de ajustar a política monetária aos indicadores econômicos.
"Há uma dissonância forte entre o diagnóstico do Copom e o remédio aplicado", diz Alexandre Schwartsman, economista e ex-diretor do BC.
"O diagnóstico está correto: há um choque inflacionário sério decorrente da crise do petróleo, com outros riscos à frente [como o El Niño], e de uma economia superaquecida que se traduz na elevação da inflação no horizonte relevante. Mas a resposta foi inadequada, com uma justificativa frágil em várias dimensões."
O Copom cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, a 14,25% ao ano, como amplamente esperado pelo mercado. Foi o terceiro corte consecutivo desde março. Já o Fed (Federal Reserve, o banco central norte-americano) também foi em linha com as expectativas e manteve a taxa de juros inalterada na faixa de 3,5% e 3,75%. Nesta quinta, a Bolsa oscilou entre os sinais durante o pregão e fechou em variação negativa de 0,1%, a 168.277 pontos.
No comunicado divulgado após a decisão, o comitê afirma que, se mantivesse os juros em patamar necessário para levar a inflação à meta ao término de 2027, eles acabariam derrubando o índice para um patamar abaixo do alvo no primeiro trimestre de 2028 —sem dizer quanto exatamente. O BC trabalha com a meta de inflação em 3% ao ano, com margem de 1,5 ponto percentual para cima e para baixo.
"Inflação cair abaixo da meta não é coisa de outro mundo. Faz parte da operação normal do regime de metas: ela ora fica abaixo, ora fica acima, mas flutua ao redor dos 3%. Esse é o primeiro ponto. O segundo é que é difícil acreditar que a inflação ficaria abaixo da meta no primeiro trimestre de 2028, se, ao fim de 2027, o BC projeta 3,7%. É um espaço de tempo muito curto para cair tanto assim", diz Schwartsman.
As curvas de juros futuros se inclinaram em resposta à decisão do BC. Nos vencimentos para 2026, o movimento foi de baixa, refletindo a perspectiva de juros menores no curto prazo.
Nas curvas longas, a partir de 2027, porém, o movimento foi de alta de mais de 0,20 ponto percentual em alguns pontos. "Juros mais baixos hoje, com a inflação desancorada, exigem juros ainda mais altos no futuro", afirma Lais Costa, especialista em renda fixa da Empiricus.
O vencimento para janeiro de 2029, por exemplo, avançou para 14,77%, alta de 0,24 ponto percentual em relação ao ajuste pré-Copom. A taxa para janeiro de 2035 avançou para 14,52%, avanço de 0,25 ponto ante a véspera.
Na prática, explicam os especialistas, o comitê estendeu o horizonte relevante para o primeiro trimestre de 2028 –o que, na visão de Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management, é uma forma de mudar a meta sem admitir o ajuste.
"O horizonte não foi estendido por razões técnicas. Foi estendido para que a projeção coubesse na decisão que o Comitê já havia, implicitamente, tomado", escreveu ela em artigo para a Folha nesta quinta-feira (18).
Alongar o horizonte, explica ela, não é neutro. "Quanto mais distante o ponto de chegada, menor a disciplina que o regime de metas impõe sobre as decisões correntes, maior a margem para acomodar desvios e mais frágil se torna o compromisso com a convergência", afirma.
Essa percepção criou ruídos entre os agentes do mercado sobre a condução da política monetária e, em última análise, sobre a credibilidade do BC para continuar ancorando as expectativas de inflação.
A desancoragem das expectativas de inflação tem efeitos palpáveis na economia real.
Benito Salomão, professor de economia da Universidade Federal de Uberlândia, afirma que empresas precisam decidir qual será o preço de seus produtos e serviços nos próximos meses e, para isso, dependem de uma projeção de inflação.
"Elas podem escolher essa projeção baseada na meta do BC ou na inflação corrente. Se o próprio BC diz que a convergência só vai ocorrer à frente do prazo relevante, a firma não tem por que reajustar seus preços com base na meta. A razão de existência da meta é que as pessoas acreditem nela e reajustem seus preços baseados nela."
Ainda, de acordo com Marcelo Mello, CEO da SulAmérica Investimentos, a taxa Selic não baliza o crédito de longo prazo na economia.
"Financiamentos para grandes empresas, crédito imobiliário e linhas de investimento estruturadas são precificados com base na curva de juros futuros, e não na Selic de hoje. Se a instabilidade na comunicação do Copom faz com que as taxas de mercado de longo prazo subam, o custo final do crédito para quem investe ou consome na ponta pode encarecer, ou, no mínimo, parar de cair", afirma.
Os diretores do BC estão em período de silêncio após a decisão, como de praxe. Mas Gabriel Galípolo, presidente da autarquia, já chegou a dizer anteriormente que "existem grandes campeonatos de interpretação de texto a cada decisão do Copom, que envolvem entender se uma vírgula mudou de lugar, alguma coisa nesse sentido".
O mercado agora aguarda a próxima terça-feira, dia de divulgação da ata da reunião, em busca de esclarecimentos sobre a confusão criada pelo comunicado.
Gustavo Danilo, especialista em renda fixa da Manchester Investimentos, lembra que a credibilidade de um banco central não se perde em um único dia, mas tende a ser testada quando a comunicação parece enevoada.
A ata será importante neste cenário. "O mercado quer ver se o Copom vai reforçar o compromisso em cumprir a meta e condicionar os próximos passos ao ritmo inflacionário, assumindo até uma possibilidade de manutenção ou mesmo de alta da Selic", afirma.
"Se o Copom se mantiver ambíguo e sem direção, vamos ver mais prêmios de riscos nos juros e até nas NTN-Bs [títulos públicos ancorados na inflação, com ganho real]".
Fonte: Folha Online - 18/06/2026
Notícias relacionadas
- 19/06/2026 O que pesa contra líder do governo Lula no Senado alvo de nova fase de operação contra Banco Master
- 19/06/2026 Comunicação considerada confusa do BC cria ruído e pode afetar economia real, dizem analistas
- 19/06/2026 Ressaca de endividamento e juro de equilíbrio no Brasil
- 18/06/2026 Comunicado do Copom traz sinais de que fim - do ciclo de cortes - está próximo
- 18/06/2026 Dólar reverte perdas e sobe para R$ 5,11 com apostas de alta de juros nos EUA; Bolsa cai
- 18/06/2026 Aposentados do INSS têm até sexta (19) para pedir ressarcimento de descontos nos Correios
- 18/06/2026 Para analistas, BC sinaliza que convergência da inflação para a meta ficará para 2028
- 17/06/2026 Copom avalia indicadores econômicos e decide sobre taxa Selic
- 17/06/2026 Vendas no comércio recuam 1,5% em abril, impactadas por combustíveis
- 17/06/2026 STF condena Eduardo Bolsonaro por articular ações do governo Trump contra o Brasil: o que pode acontecer com ele?
Notícias
- 19/06/2026 Enel SP é defendida por sindicato em ofício para agência
- Ressaca de endividamento e juro de equilíbrio no Brasil
- Taxas de juros em contas digitais: comparação entre plataformas financeiras
- Anvisa determina recolhimento de lotes de antibióticos
Perguntas e Respostas
- Quanto tempo o nome fica cadastrado no SPC, SERASA e SCPC?
- A consulta ao SPC, SERASA ou SCPC é gratuita?
- Saiba quais os bens não podem ser penhorados para pagar dívidas
- Após quantos dias de atraso o credor pode inserir o nome do consumidor no SPC ou SERASA?
- Protesto de dívida prescrita é ilegal e dá direito a indenização por danos morais
- Como consultar SPC, SERASA ou SCPC?
- ACORDO - Em caso de acordo, após o pagamento da primeira parcela o credor é obrigado a tirar o nome do devedor dos cadastros de SPC e SERASA ou pode mantê-lo cadastrado até o pagamento da última parcela?
- CHEQUE – Não encontro à pessoa para qual passei um cheque que voltou por falta de fundos. O que posso fazer para pagar este cheque e regularizar minha situação?
- Problemas com dívidas? Dicas para você não entrar em desespero
- PROTESTO - Qual o prazo para o protesto de um cheque, nota promissória ou duplicata? O protesto renova o prazo de prescrição ou de inscrição no SPC e SERASA?
- Cartão de Crédito: Procedimentos em caso de perda, roubo ou clonagem
- O que o consumidor pode fazer quando seu nome continua incluído na SERASA ou no SPC após o pagamento de uma dívida ou depois de 5 anos?
- Posso ser preso por dívidas ?
- SPC e SERASA, como saber se seu nome está inscrito?
- Acordo – Paga a primeira parcela nome deve ser excluído dos cadastros negativos (SPC, SERASA, etc)
