Dívida pública ultrapassa 80% do PIB e pressiona juros, crédito e custo de vida
Publicado em 06/08/2026 , por Exame
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Especialistas avaliam que os efeitos da dívida podem ser observados no financiamento da casa própria e até mesmo no preço dos alimentos
Segundo especialista, quando o governo oferece remuneração elevada para atrair investidores aos títulos públicos, empresas enfrentam mais dificuldades para captar recursos
A dívida pública brasileira voltou a acender o sinal de alerta. Dados do Tesouro Nacional mostram que o estoque da dívida federal atingiu R$ 9,26 trilhões em junho, o equivalente a 81,9% do Produto Interno Bruto (PIB). No mesmo período, o custo médio da dívida subiu para 12,7% em 12 meses, o maior nível para o mês desde 2016.
Embora os números pareçam distantes da realidade da população, especialistas afirmam que seus efeitos são sentidos no dia a dia, desde o financiamento da casa própria até o preço dos alimentos e a geração de empregos.
Para a especialista em finanças e sócia-diretora do Grupo Mide, Milene Dellatore, o problema não está apenas no tamanho da dívida, mas no custo para financiá-la. "O Brasil combina uma dívida crescente com juros muito elevados. Nos últimos 12 meses, o setor público gastou cerca de R$ 1,16 trilhão com juros, o equivalente a 8,8% do PIB. É isso que torna a situação tão pesada", detalha.
Segundo ela, a dinâmica pode ser comparada ao orçamento de uma família que passa a comprometer parcela cada vez maior da renda apenas com o pagamento de juros: "Toda dívida emitida hoje representa impostos, redução de gastos ou refinanciamento no futuro. No fim, essa conta sempre volta para a população."
A especialista explica que, quando o governo oferece remuneração elevada para atrair investidores aos títulos públicos, empresas enfrentam mais dificuldades para captar recursos. "O empresário deixa de investir, expandir a produção ou contratar funcionários porque o custo do dinheiro ficou muito alto. Com menos investimento, há menos empregos, menor crescimento e crédito mais caro para as famílias", diz.
O economista e conselheiro do Conselho Regional de Economia do Estado de São Paulo (Corecon-SP), André Paiva, observa que a relação entre dívida e PIB passou de 76% para 82% em apenas um ano, impulsionada pela combinação de juros reais elevados e desaceleração econômica. Para ele, a percepção de risco fiscal tem contribuído para manter o crédito restrito e caro.
"Empresas e famílias enfrentam aumento do endividamento e da inadimplência, enquanto o varejo registra queda nas vendas e diversos setores ampliam os pedidos de recuperação judicial. Esse cenário também afeta a geração de empregos", afirma.
Outro reflexo do avanço da dívida é a pressão sobre as contas públicas. Como parte crescente do orçamento é destinada ao pagamento de juros, sobra menos espaço para investimentos em infraestrutura, pesquisa e serviços públicos.
Na avaliação de Dellatore, o ajuste das contas não deve se basear apenas no aumento da arrecadação. "A reforma tributária pode simplificar o sistema, mas isso não significa necessariamente redução da carga tributária. O País precisa revisar gastos permanentes, eliminar desperdícios e tornar a máquina pública mais eficiente, sem comprometer áreas essenciais."
Fonte: Exame Online - 05/08/2026
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