O preço do calor: qual será o prejuízo do El Niño para o bolso do brasileiro?
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O preço do calor: qual será o prejuízo do El Niño para o bolso do brasileiro?

Publicado em 11/08/2026 , por R7

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Especialistas alertam para um risco inflacionário de produtos básicos, aumento no preço do combustível e custos à agricultura

Dois anos após enfrentar seu maior período de estiagem recente e o desastre sem precedentes provocado pelas enchentes no Sul, o Brasil entra em uma nova fase de atenção climática com o El Niño. O fenômeno foi oficialmente configurado em junho de 2026 e, segundo o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), há 100% de probabilidade de que ele permaneça ativo até pelo menos o início de 2027.

Para o trimestre de agosto a outubro de 2026, a previsão climática aponta para um cenário de contrastes no país, com temperaturas acima da média histórica. A região Sul deve registrar chuvas acima da média, enquanto a faixa centro-norte tende a ter precipitações abaixo do esperado para o período.

Embora os impactos variem de acordo com a região e dependam da evolução do fenômeno nos próximos meses, o histórico de episódios de El Niño mostra que alterações no padrão de chuvas e temperaturas podem provocar efeitos sobre a agricultura, os recursos hídricos, a geração de energia e a economia.

Seja pela seca ou pelos temporais, a conta chega, eventualmente, às prateleiras e, consequentemente, ao bolso do consumidor. A professora e pesquisadora em economia da PUC-SP, Cristina Helena Pinto, explica que um evento climático pode atingir simultaneamente a produção, o armazenamento, o transporte e a comercialização dos alimentos.

“Uma enchente, por exemplo, pode não apenas destruir uma lavoura, mas também interromper estradas e elevar o custo logístico. A seca pode reduzir a produtividade e, ao mesmo tempo, pressionar os custos de energia”, aponta a economista, ao ressaltar que o impacto nos preços se reflete em velocidades diferentes conforme o produto.

“Alguns produtos possuem transmissão mais lenta ou defasada. É o caso de grãos e proteínas que podem ser estocados. No caso de culturas que dificilmente são estocáveis, o repasse aos preços finais é muito mais rápido e precisa ser para proteger o produtor e garantir as ofertas futuras. Em alguns alimentos, principalmente hortaliças, frutas e produtos com ciclos produtivos mais curtos, uma quebra de oferta pode chegar rapidamente ao consumidor”, acrescenta.

Embora Helena destaque que o El Niño não produz o mesmo efeito em todas as regiões, ela projeta quais itens devem ser pressionados nos próximos meses.

Frutas e hortaliças tendem a encarecer rapidamente devido à extrema sensibilidade ao excesso de chuvas (que apodrecem safras no Sul) ou à seca rigorosa (no Norte e Nordeste).

Alimentos básicos como feijão e arroz também preocupam, diante da forte concentração regional do plantio. Inundações no Sul ou estiagens prolongadas no Centro-Oeste desorganizam a oferta de imediato.

As proteínas animais devem sofrer com a alta dos custos de produção. O estresse térmico reduz a produtividade do gado e das pastagens, enquanto o encarecimento do milho e da soja — base da ração animal — inflaciona o preço final das carnes.

No caso do açúcar e do café, culturas perenes e semiperenes, o impacto é sentido a médio e longo prazo. Embora o estresse hídrico afete as plantas hoje, o efeito na oferta e a alta nas cotações globais só aparecem na safra seguinte.

Quanto menor a renda, maior o impacto

Apesar de ser possível projetar quais alimentos sofrerão maior pressão, a economista ressalta que a conta final não pesa de forma igual para todos. Segundo a pesquisadora, a crise climática gera um efeito duplo sobre as famílias ao reduzir a renda disponível e elevar o custo de vida, um impacto gravíssimo, principalmente, para a população de menor renda.

“Quando um evento climático destrói uma atividade produtiva ou interrompe o trabalho, a família pode sofrer simultaneamente perdas patrimoniais, uma redução de renda e um aumento do custo de vida. É dramático”, afirma.

“Esse impacto é bastante desigual. Famílias de menor renda comprometem uma parcela maior do orçamento com alimentação, higiene e tarifas básicas. A crise climática opera como um imposto regressivo incipiente”, acrescenta.

Fonte: R7 - 11/08/2026

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