As mudanças no mercado de crédito e o endividamento das famílias
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As mudanças no mercado de crédito e o endividamento das famílias

Publicado em 19/05/2026 , por Folha Online

O endividamento das famílias brasileiras alcançou cerca de 50% da renda disponível bruta em 2026, patamar semelhante ao de 2021, quando a economia se recuperava da pandemia. Em paralelo, o comprometimento da renda com a amortização de dívidas e o pagamento de juros atingiu 30%, o maior valor da série histórica.

De um lado, o endividamento excessivo pode representar queda significativa do consumo futuro das famílias que acessam modalidades de juros muito elevados, sobretudo as de baixa renda. De outro, a contratação de empréstimos para fazer frente a despesas urgentes ou para antecipar expectativas de aumento de rendimentos no futuro, como no caso do empréstimo estudantil, é instrumento importante de suavização de consumo ao longo do tempo. Assim, qualquer diagnóstico sobre o crescimento do endividamento, que ocorre apesar do dinamismo do emprego e da renda, perpassa entender a dinâmica do mercado de crédito, que se transformou de forma expressiva nos últimos seis anos.

Entre as mudanças mais significativas, está a enorme expansão do crédito livre, com juros livremente pactuados entre as partes. Desde 2019, o saldo do crédito livre cresceu cerca de 75% em termos reais —em torno de 8,5% ao ano. Em modalidades mais caras, a expansão foi ainda maior: quase 200% no parcelado com juros e aproximadamente 135% no crédito pessoal não consignado.

Ao que tudo indica, há fatores estruturais por trás dessas mudanças. O acesso ao sistema financeiro se ampliou significativamente no pós-pandemia, e a digitalização dos meios de pagamento facilitou tanto a contratação quanto o uso do crédito.

Segundo o mais recente Relatório de Cidadania Financeira do Banco Central, 175 milhões de pessoas —96,4% da população adulta— têm conta bancária. Cada cidadão bancarizado mantém, em média, sete relacionamentos com instituições financeiras diferentes, quase o dobro de 2021, ampliando o acesso a produtos financeiros. A introdução e a rápida disseminação do Pix também contribuíram para a inclusão financeira da população de baixa renda: em 2023, 74% dos adultos inscritos no Cadastro Único já haviam registrado chave Pix e 72% haviam efetuado algum pagamento no ano.

Dessa forma, de 2020 a 2024, 32 milhões de pessoas a mais passaram a ter algum produto de crédito, um aumento de 34% no período. Hoje, são 130 milhões de brasileiros com exposição a crédito —cerca de 74% da população bancarizada. Desde 2020, o número de tomadores de empréstimo pessoal mais do que triplicou, e mais de 37 milhões de brasileiros passaram a ter acesso ao cartão de crédito. Entretanto, o número de clientes com dívidas no cartão, no rotativo ou no parcelado, também aumentou, passando de 34 milhões para 53 milhões. Essas duas modalidades representam apenas 25% do saldo das operações no cartão —os outros 75% correspondem ao crédito à vista—, mas estão entre as mais caras do mercado.

Assim, por mais que a inclusão financeira represente uma conquista importante, o endividamento elevado combinado à contratação de crédito em modalidades extremamente caras traz preocupações.

Considerando as taxas de 435% e de 200% ao ano no rotativo e no parcelado do cartão, não parece razoável contrair empréstimos que comprometam de forma tão severa o consumo futuro (no caso do rotativo, a taxa de juros é limitada a um teto de 100% do valor da dívida contraída, pois desde janeiro de 2024 vigora norma que estabelece que a dívida de quem atrasa o pagamento da fatura do cartão de crédito não pode superar o dobro do montante original).

É nesse sentido que o perdão das dívidas, como proposto no Desenrola 2.0, passa longe de endereçar o problema central do alto endividamento das famílias. A questão não é renegociar o estoque atual, mas evitar que famílias de baixa renda continuem a contratar crédito em modalidades incompatíveis com sua capacidade de pagamento. A inclusão financeira dos mais pobres precisa vir acompanhada de ações que façam com que o acesso se dê de forma sustentável.

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Fonte: Folha Online - 18/05/2026

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