O Pix é eficiente; o cartão é um parasita
Publicado em 03/06/2026 , por Folha Online
Você paga R$ 100 no cartão de crédito e o vendedor recebe R$ 97. Você paga R$ 100 no Pix e o vendedor recebe R$ 100. Parece muito melhor, mas quem arca com o custo de processar a transação?
O Pix foi desenvolvido pelo Banco Central do Brasil, é oferecido gratuitamente como meio de pagamento e o custo de processamento de cada transação para o Banco Central é inferior a R$ 0,01.
O Pix é, portanto, um meio de pagamento extremamente eficiente. Como cartões de crédito, ineficientes e caros, sobrevivem cobrando taxas tão altas?
Quando uso o cartão de crédito, o dinheiro sai da minha conta no mês seguinte. No Pix, o dinheiro sai na hora. Se o preço é o mesmo, eu ganho um pouco com os juros, vale a pena.
Por que o preço é o mesmo? É caro vender no cartão de crédito, então faria sentido para o vendedor cobrar mais por isso, não?
Até bem pouco tempo atrás, uns dez anos, vendedores eram proibidos de cobrar mais pela venda no cartão de crédito. Clientes usavam o cartão para pagar depois e ganhar uns juros com isso, lojistas aceitavam para não perder vendas e, assim, pagavam um pedágio para as administradoras de cartão de crédito.
Isso mudou com uma medida provisória de dezembro de 2016, que virou lei em 2017. Agora, lojas podem cobrar preços diferentes para meios de pagamentos diferentes desde que os valores estejam claros para o consumidor.
O problema é que, na prática, isso é difícil. O pacote de figurinhas custa R$ 7. O vendedor pode cobrar R$ 7,30 no crédito? Vão reclamar, chamar o Procon, boicotar o estabelecimento? Melhor não arriscar. E cobrar R$ 6,75 no Pix comprime a margem, que é pequena. A dor de arcar com a taxa do cartão de crédito vem do desejo de não sentir a dor de contrariar expectativas de clientes.
Restaurantes também não querem colocar no menu dois preços. É chato, confunde. E a diferença seria só de 3%. Para que chatear os consumidores com isso?
Assim, apesar de muito mais caros e ineficientes que o Pix, cartões de crédito continuam sobrevivendo, como parasitas.
Aproveitando a necessidade de transparência, a vontade de não chatear o cliente com taxas de 3% e a cumplicidade involuntária dos Procons, cartões de crédito cobram altas taxas e recompensam clientes com pontinhos e uns trocos com juros.
Instituições financeiras privadas arcam com alguns dos custos das transações por Pix (custos que incluem integração da infraestrutura tecnológica e medidas para prevenir fraudes) e não cobram pelo Pix. Podem, porém, cobrar por seus serviços de outras maneiras —um banco pode, por exemplo, cobrar uma taxa mensal de seus correntistas.
Isso é comum. Leis estabelecem várias restrições ao que pode ser cobrado. Por exemplo, escolas precisam contratar pessoas para acompanhar estudantes com necessidades especiais e são proibidas de cobrar uma taxa extra dos pais por isso. Perto disso, o custo do Pix para as instituições é ínfimo.
Não há, portanto, motivo razoável para o governo de Trump reclamar sobre o Pix. Nós temos motivos para maldizer —e, infelizmente, continuar usando— os cartões de crédito.
A oposição à nota do governo dos Estados Unidos incluindo o Pix no rol de razões para tarifas comerciais deveria unir todos os campos políticos.
Fonte: Folha Online - 02/06/2026
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