Atraso na migração automática do crédito eleva inadimplência do consignado privado
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Atraso na migração automática do crédito eleva inadimplência do consignado privado

Publicado em 09/07/2026 , por Folha Online

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Uma falha na implementação do sistema que transfere automaticamente os descontos em folha de pagamento quando o trabalhador troca de emprego é a principal causa da alta da inadimplência nos empréstimos consignados para trabalhadores da iniciativa privada, segundo integrantes do governo ouvidos pela Folha.

A elevação da inadimplência para essa modalidade de crédito, lançada no ano passado pelo governo Lula, chamou a atenção por se tratar de uma linha de crédito garantida por desconto em folha. Na semana passada, o Banco Central informou que a taxa de inadimplência da modalidade alcançou 7,9% em maio, alta de 0,4 ponto percentual em relação ao mês anterior.

A avaliação do governo é que mais da metade da inadimplência observada atualmente decorre desse problema operacional, e não de uma piora na capacidade de pagamento dos trabalhadores. A expectativa é que, com a implementação da migração automática entre vínculos empregatícios, os índices de atraso recuem gradualmente.

Quandocriou o programa, o governo apresentou como uma de suas principais inovações a possibilidade de manter automaticamente o desconto das parcelas mesmo quando o trabalhador mudasse de emprego.

A ferramenta busca eliminar uma fragilidade histórica do consignado privado: a interrupção do desconto em folha após a rescisão do contrato de trabalho. Isso exigia uma nova averbação quando o empregado era contratado por outro empregador. O órgão do governo responsável pela funcionalidade disse à Folha que ela só deve entrar em operação em agosto.

Integrantes da equipe econômica afirmam, porém, que essa funcionalidade ainda não está plenamente operacional. Hoje, quando o trabalhador troca de emprego, o desconto das parcelas é interrompido até que o novo vínculo seja processado. Isso gera atrasos nos pagamentos e pode colocar o trabalhador, involuntariamente, em cadastros negativos de crédito, a depender dos critérios da instituição financeira.

O governo corre agora para fazer os ajustes no sistema para corrigir a falha no programa, que é apontado como vitrine do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) neste ano de eleições.

Em nota, o Ministério do Trabalho atribuiu o aumento da inadimplência ao "ambiente de custos de captação de recursos enfrentado pelas instituições consignatárias no mercado financeiro para alavancar a oferta de crédito no âmbito do programa".

A Dataprev, empresa estatal responsável por gerir a base de dados sociais do país e processar benefícios como aposentadorias e seguro-desemprego, informou à reportagem que a funcionalidade que fará a migração automática dos contratos quando o trabalhador trocar de emprego está prevista para entrar em operação apenas em agosto.

Até lá, segundo a estatal, as instituições financeiras são informadas sobre o encerramento e o início de novos vínculos empregatícios para que façam uma nova averbação do contrato. A empresa afirma que não há falha neste sistema atualmente em operação.

Criado em março de 2025, o Crédito do Trabalhador reformulou o consignado para empregados da iniciativa privada. O programa permite a contratação do empréstimo diretamente pela Carteira de Trabalho Digital, dispensando convênios entre empresas empregadoras e bancos. A iniciativa também permitiu que trabalhadores contratados por pessoas físicas, como domésticos, passassem a ter acesso ao crédito consignado.

Nos bastidores, integrantes da equipe econômica afirmam que os dados de inadimplência geraram preocupação devido à imagem do Crédito do Trabalhador. O programa é uma das principais apostas do governo para ampliar o acesso ao crédito e reduzir as taxas de juros para trabalhadores da iniciativa privada, tema considerado sensível principalmente em um ano eleitoral.

Uma alta nas taxas de inadimplência poderia colocar em xeque a eficácia do novo consignado privado, que foi desenhado para reduzir os juros cobrados aos trabalhadores com carteira assinada.

Auxiliares do presidente Lula também buscam afastar a interpretação de que a alta da inadimplência representa uma deterioração da qualidade do crédito com a expansão do alcance do programa.

Representantes do setor bancário, ouvidos na condição de anonimato, afirmam que uma parcela da inadimplência é inerente ao próprio funcionamento do consignado privado. Isso ocorre, por exemplo, quando o trabalhador perde o emprego e deixa de ter o desconto em folha, fazendo com que as parcelas permaneçam em aberto até que ele seja reempregado ou renegocie a dívida.

Na avaliação de executivos do setor, porém, a alta recente da inadimplência também reflete problemas operacionais na implementação do Crédito do Trabalhador. Entre eles, está justamente a ausência da migração automática dos descontos quando o trabalhador troca de empregador. Nestes casos, o atraso não decorre necessariamente da incapacidade de pagamento. Ele resulta da interrupção temporária do desconto em folha enquanto o novo vínculo empregatício não é processado pelo sistema.

Outro ponto citado por integrantes do governo é que uma das principais medidas de reforço do programa só passou a valer recentemente. Em 26 de junho, entrou em operação a primeira fase da funcionalidade que permite usar o saldo do FGTS como garantia. A medida vale para operações de crédito consignado. A expectativa é que a medida contribua para ampliar o acesso ao crédito e reduzir as taxas de juros nos próximos meses.

Segundo os dados do BC, as novas concessões do consignado privado caíram para R$ 7,6 bilhões em maio, ante R$ 9,9 bilhões em abril. Segundo o BC, a redução é considerada natural após o recorde de R$ 10,8 bilhões registrado em março, o maior patamar da série histórica, iniciada em 2011. Mesmo com a queda nas concessões, o saldo da carteira de consignado privado avançou 4,8% em maio.

O Ministério do Trabalho afirma que a queda na Selic, atualmente em 14,25% ao ano, "não produziu efeitos significativos sobre o custo de captação das instituições financeiras, tampouco se refletiu em redução relevante das taxas de juros ao tomador final ou em condições mais vantajosas para a renegociação das operações de crédito".

A pasta ainda escreveu que "a ausência dessa funcionalidade automática não impede a manutenção do contrato de crédito quando o trabalhador é admitido em um novo vínculo empregatício".

Fonte: Folha Online - 09/07/2026

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